A malandragem mudou de lado

Marcos Guterman

02 Julho 2010 | 15h56

A Holanda derrotou o Brasil usando uma arma tipicamente brasileira: a malandragem. Seus jogadores, em especial Robben, provocaram os tensos adversários ao transformar cada falta sofrida num teatro de segunda categoria, diante do olhar complacente do árbitro japonês Yuichi Nishimura. Robinho, de quem se esperava justamente a malícia que sobrou aos holandeses, foi o retrato do descontrole emocional, ao perder mais tempo reclamando da fita dos laranjas do que jogando bola.

E ainda tivemos Felipe Melo, que no segundo tempo confirmou a crônica de uma expulsão anunciada. Se no início do jogo, com o passe milimétrico que deu a Robinho para fazer o gol brasileiro, Melo surpreendeu seus críticos, na etapa final ele tratou de desfazer a ilusão de que enfim havia se tornado um bom jogador.

A seleção brasileira, disciplinada e “fechada”, como prescreve o dunguismo, parece ter deixado o futebol autêntico em segundo plano. E o futebol, como sabe quase todo brasileiro, não se resume a um jogo; é também um modo de confirmar a vocação do Brasil para a improvável aliança entre o individual e o coletivo, entre o malandro e o esquema tático, entre o “jeitinho” e as obrigações sociais. Na didática derrota para a Holanda, aprendemos que, com o dunguismo, a seleção deixou de ser essa representação, que nossos melhores jogadores parecem ter esquecido aquilo que Gilberto Freyre identificou, no futebol brasileiro, como o “conjunto de qualidades de surpresa, de manha, de astúcia e, ao mesmo tempo, de espontaneidade individual”.

Numa Copa em que a Alemanha jogou um futebol mais “brasileiro” que o Brasil, é o caso de refletir sobre o que fizemos do nosso maior patrimônio cultural.

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