A longa viagem linguística das “pessoas com deficiência”

Marcos Guterman

16 de novembro de 2011 | 18h46

Recebemos aqui no Estadão um comunicado interno com orientações sobre como devemos nos referir às pessoas com algum tipo de deficiência. O texto começa dizendo que “a maioria das pessoas” usa termos “incorretos” e isso “reforça a segregação das pessoas com deficiência”.

O comunicado é muito interessante porque faz uma espécie de arqueologia das expressões usadas para falar das “pessoas com deficiência”. Primeiro, usava-se o termo “deficiente”, mas, segundo o texto, ele “gera uma associação negativa, pois sugere incapacidade ou inadequação à sociedade”. Depois, adotou-se a expressão “portador de deficiência”, que o comunicado diz ter sido abandonada porque “quem porta algo pode deixar de portar, e deficiência é uma condição”. Por fim, criou-se a expressão “pessoas portadoras de necessidades especiais”, mas isso também caiu “em desuso”, diz o texto, por causa de sua abrangência: “Qualquer pessoa pode ter ‘necessidades especiais’, como, por exemplo, uma grávida ou um idoso”.

O comunicado informa que “movimentos mundiais de pessoas com deficiência incluindo os do Brasil, já convencionaram de que forma preferem ser chamados: pessoas com deficiência”. Essa expressão, mostra o texto, já consta de documentos da ONU e foi oficializada no Brasil pela portaria 2.344 da Presidência da República, publicada em novembro de 2010.

Confesso que não consigo ver diferença entre as expressões “pessoas com deficiência” e “deficientes”, isto é, entre a forma mais antiga e a mais nova. “Pessoas com deficiência”, a exemplo de “deficientes”, parecem ser pessoas com alguma “incapacidade ou inadequação à sociedade”, que é justamente o argumento que desqualificou o primeiro termo, segundo ficamos sabendo. Se não houvesse essa incapacidade que a expressão “deficiente” denota, as “pessoas com deficiência” não precisariam que o poder público lhes fornecesse condições especiais para que se locomovam e encontrem trabalho.

Não considero inúteis os esforços para limpar termos que carregam sentido pejorativo e preconceituoso ­– pelo contrário: a força da linguagem está justamente em sua capacidade de criar imagens por meio das quais o mundo é interpretado pela sociedade, e isso fixa estereótipos difíceis de superar. No entanto, parece-me que certos exageros politicamente corretos tendem a criar confusão e a constranger a comunicação, o que, em última análise, gera problemas maiores do que o saneamento lexical quis evitar.

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