A “invenção” da heterossexualidade

Marcos Guterman

17 de maio de 2011 | 23h25

Não parece haver dúvida de que a manutenção da espécie humana depende da reprodução sexual, a exemplo do que acontece em todo o reino animal. Esse processo, até onde se sabe, só é viável se o espermatozóide de um homem fecundar o óvulo de uma mulher. No entanto, começa a surgir a tese segundo a qual a heterossexualidade, matriz da reprodução, não é “natural”, mas “historicamente construída”.

Trata-se de uma nova etapa da militância do movimento homossexual. Nos últimos anos, esse movimento dedicou-se a lutar por isonomia de direitos, sobretudo no âmbito da união civil. Noves fora o linguajar deslocadamente poético de alguns ministros do Supremo brasileiro quando decidiram a questão, foi um momento histórico positivo na vida nacional. Afinal, independentemente da orientação sexual, todos os brasileiros devem ter tratamento igual perante a lei, e isso é tão óbvio que custa a acreditar que não tenha sido decidido antes.

Agora, porém, uma parte dos ativistas gays quer mais que direitos. Quer modificar a noção que se tem da condição heterossexual. Leandro Colling, presidente da Associação Brasileira de Estudos da Homocultura, publicou artigo na Folha (aqui, só para assinantes) no qual defende que não basta “afirmar as identidades” de lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros. É preciso “problematizar as demais identidades”, isto é, a dos heterossexuais, para mostrar “o quanto ela também é uma construção, ou melhor, uma imposição sobre todos”. Segundo Colling, os heterossexuais vivem numa “zona de conforto em relação às suas identidades sexuais e de gêneros” e consideram que somente os homossexuais “têm uma sexualidade construída e problemática”. Em sua opinião, a única forma de combater a homofobia é mostrar que “a heterossexualidade é compulsória”.

De fato, é vital refletir sobre o modo como as sociedades pensam o mundo e cristalizam conceitos. Ajuda a entender certas armadilhas discursivas que nos fazem agir em favor de interesses meramente consumistas ou estéticos, vazios de valor. Foucault fez esse exercício em “As Palavras e as Coisas” (1966), mostrando o processo de “naturalização” das ideias, como se elas não estivessem na história: “O homem é uma invenção cuja recente data a arqueologia de nosso pensamento mostra facilmente”.

Antes de Foucault, Nietzsche argumentou que linguagem é poder, ao dizer que o conceito de “bom” foi criado por aqueles que se consideravam “bons”, isto é, os senhores. “O direito senhorial de dar nomes vai tão longe, que nos permitiríamos conceber a própria origem da linguagem como expressão de poder dos senhores: eles dizem ‘isso é isto’, marcam cada coisa e acontecimento com um som, como que se apropriando assim das coisas”, escreveu Nietzsche em sua “Genealogia da Moral” (1887).

No “LTI” (1947), sua brilhante obra sobre a linguagem do Terceiro Reich, o filólogo Viktor Klemperer mostra como a estratégia do discurso nazista tornou aceitável e “normal” tratar os não-arianos como seres inferiores. A linguagem é o veículo ideal para esse fim: penetra como um veneno e “naturaliza” o que, na verdade, não passa de uma mentira. A impostura é institucionalizada no âmbito das consciências.

Por outro lado, o exagero deliberado (e cínico) dessa “desconstrução” linguística e social leva à relatividade absoluta, em que “tudo é história” – e, portanto, nada é. Dizer que a condição de heterossexual é essencialmente uma construção histórica, algo “compulsório” que serve apenas a uma relação de poder, sem considerar a questão reprodutiva, não é somente um posicionamento político radical, é uma afronta à realidade objetiva.

A relativização divorciada da óbvia necessidade de parâmetros do real é a mesma que permite barbaridades como o livro didático “Por Uma Vida Melhor”, segundo o qual falar “os livro” está tão correto quanto “os livros”, em nome do respeito à “diversidade”. Quem defende a norma culta como padrão e se insurge contra esse “argumento” é acusado de exercer “preconceito lingüístico”.

Ao dinamitar os elos com a noção de realidade objetiva, os pós-modernos de todas as tendências – dos militantes homossexuais que querem desmoralizar os heterossexuais aos apologistas da ignorância como “traço cultural” – produzem um ambiente em que nenhum código moral é sólido o bastante para resistir à retórica travestida de “reflexão”, em que todas as instituições devem se dobrar às demandas da correção política absoluta, em que o “certo” e o “errado” se confundem deliberadamente para proteger oportunistas medíocres de todo tipo. Dessa forma, exercem uma tirania tão detestável quanto a que dizem combater.