A inutilidade do futebol

Marcos Guterman

10 Maio 2010 | 22h32

Há cem anos, quando o futebol começou a se desenvolver no Brasil, a elite branca europeia que monopolizava o jogo no país deixava claro que a vitória não era importante – o que interessava era a oportunidade da convivência entre cavalheiros. Por trás desse discurso romântico jazia a lógica da segregação social: o futebol tinha de se manter uma atividade anódina, amadora, para que seus ricos clubes não fossem contaminados por trabalhadores pobres que queriam jogar bola e, eventualmente, ganhar algum dinheiro com isso. Um século mais tarde, houve uma total inversão de valores, e a vitória, que era desprezada, passou a ser o objetivo único de um esporte que mobiliza a massa e o capital em todo o mundo.

Algo ficou pelo caminho – ao ponto de um fenômeno como o atual time do Santos, que desperta fantasias há muito tempo esquecidas, ter contra si o ceticismo dos “idiotas da objetividade” de que falava Nelson Rodrigues, expressão resgatada por José Miguel Wisnik em conversa comigo no sábado passado. Voltávamos, eu e esse grande mestre, de uma série de bons debates em Curitiba, promovidos pelo Sesc a propósito da Copa, e lá tivemos a oportunidade de ouvir a opinião de Sócrates. O craque tem autoridade sobre o assunto: era o capitão da seleção brasileira na Copa de 1982, aquela em que jogamos um futebol magnífico e acabamos derrotados, deflagrando uma crise de identidade da qual ainda não nos recuperamos.

“Parece que só a vitória interessa”, disse o Doutor, a propósito do surdo desprezo que o Santos inspira nos medíocres. Ele usava o exemplo atual, desse time mágico, para ilustrar as reações depois da tragédia de 1982. “É a lógica do capitalismo”, afirmou Sócrates – para ele, a vitória adquire um valor que supera qualquer outra consideração, como a beleza do jogo. Procura-se reduzir o futebol a um fim – ganhar títulos, amealhar prêmios, multiplicar dinheiro. Ou seja: o futebol deve ser “útil”, antes de ser admirável, no sentido dado por Oscar Wilde no prefácio de sua obra-prima O Retrato de Dorian Gray, ao falar do autêntico espírito da arte: “Podemos perdoar a um homem que faça alguma coisa útil, contanto que a não admire. A única justificação para uma coisa inútil é que ela seja profundamente admirada”.

Dessa forma, o verdadeiro futebol, aquele que nos remete às emoções da infância, aquele que surpreende e encanta, é e deve ser completamente inútil.

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