A história viva do lulismo

Marcos Guterman

01 de junho de 2011 | 18h30

O presidente do Senado, José Sarney, deu nesta semana uma pequena, porém inequívoca, demonstração do desejo do lulismo e de seus associados de enterrar o passado, fazendo do ano de 2003, aquele em que Lula tornou-se presidente, o “ano zero” da humanidade. Como se sabe, ele qualificou o impeachment do presidente Collor, em 1992, de “acidente”, que “não devia ter ocorrido” e que “não se trata de um fato marcante”. Collor é passageiro recém-embarcado no cruzeiro lulista, que tem em Sarney um de seus principais timoneiros. Logo, embora no passado Collor tenha chamado Sarney de “batedor de carteira”, Lula tenha chamado Collor de “corrupto”, Collor tenha chamado Lula de “cambalacheiro” e Lula tenha chamado Sarney de “grande ladrão”, a comunhão harmoniosa dos três se dá em nome de um grande projeto de poder e de assalto à República – projeto que, naturalmente, precisa criar uma narrativa histórica para se legitimar.

Essa narrativa vem sendo escrita há já alguns anos, sobretudo depois do mensalão, quando Lula ressuscitou no terceiro dia para se tornar Deus. A retórica visa sobretudo a desqualificar a oposição – qualquer uma. Em agosto de 2009, por exemplo, em meio a um dos vários escândalos no Senado presidido por Sarney, Collor foi à tribuna para fazer uma apaixonada defesa do senador maranhense – vítima, segundo ele, da pressão do “ruído intangível das ruas” sobre os parlamentares, assim como ocorreu em seu próprio impeachment. “A multidão e a sua vontade nem sempre ou quase nunca tem razão. A razão é alcançada com base numa reflexão profunda dos fatos que nos estão cercando e do conhecimento desses fatos. Temos exemplos na história. O nosso Jesus Cristo foi levado à cruz porque a turba optou por Barrabás, em vez de optar por Jesus”, argumentou o arguto Collor.

A interpretação de que a pressão popular é um “defeito” do sistema representativo, e que a opinião pública não passa de uma “turba”, mostra o quanto a democracia autêntica é um problema para essa neoaristocracia que subiu ao poder com Lula. Sarney, Collor e Lula preferem a demagogia, porque nela a massa responde somente a seu comando, sem deixar a ela nem a mais remota a possibilidade de reflexão. Quando a imprensa cumpre sua função, mostrando os problemas desse “mundo perfeito”, é logo acusada de fazer “campanha”, de “jogar contra”, de “minar o interesse do país”.

A opinião pública, assim, deve ser desqualificada sempre que for o caso. O mais recente rosnado lulista foi oferecido pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, a título de defesa do livro didático que considera correto falar “nós pesca os peixe”. Para ele, os críticos não leram o livro que tanto atacam, razão pela qual eles não são muito diferentes dos nazistas. Como ministro da Educação, Haddad deve saber que exagerou – gente como Ferreira Gullar e João Ubaldo Ribeiro, para citar somente dois dos críticos mais importantes do livro, dificilmente pode ser qualificada de nazista. Mas discursos como o de Haddad não servem à razão, e sim à confusão de valores, tão fundamental para os populistas.

O contraditório é justamente o antídoto do populismo, motivo pelo qual é violentamente execrado pelos guardiões do messianismo de Lula, o Salvador. Não é por outra razão que Lula prometeu fazer de sua pós-Presidência uma cruzada para “provar” que o mensalão simplesmente não existiu. Hagiografias, afinal, não podem conter manchas.

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