A hipocrisia palestina

Marcos Guterman

15 de março de 2011 | 00h43

Na sexta-feira passada, um terrorista palestino entrou num assentamento judaico na Cisjordânia e assassinou a facadas cinco membros de uma mesma família – o pai, Udi Fogel, de 37 anos; a mãe, Ruth Fogel, de 36 anos; e seus filhos Yoav, de 10 anos, Elad, de 4 anos, e Hadas, de 3 meses. Todos, inclusive o bebê, foram degolados enquanto dormiam. Depois de negar que os palestinos estivessem envolvidos nesse crime absolutamente hediondo, o presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, rendeu-se às evidências e declarou à Rádio Israel: “Um ser humano não é capaz de fazer algo assim. Cenas como essas, o assassinato de crianças e de uma mulher, levam qualquer um dotado de humanidade a chorar e lamentar”. Mas as palavras de Abbas podem não valer a saliva que foi gasta.

No mesmo dia em que o terrorista agiu, o Fatah, grupo ao qual Abbas pertence, fez uma importante homenagem a Dalal Mughrabi, a terrorista palestina responsável pelo massacre de 38 israelenses – entre os quais 13 crianças – em 1978. Ela é considerada uma heroína pelo Fatah, uma mulher que deu a vida pela causa, ainda que, para isso, tenha tirado a vida de dezenas de inocentes, inclusive crianças.

A pergunta óbvia é: como se pode acreditar nas palavras de Abbas quando sua facção política, justamente aquela que serve de interlocutora nas negociações com Israel, glorifica uma mulher que assassinou inocentes a sangue frio? Ao “condenarem” o terrorismo ao mesmo tempo em que o incitam, Abbas e os palestinos não podem reclamar da hipocrisia dos israelenses – que vivem a criticar a indisposição palestina ao diálogo ao mesmo tempo em que mantêm o ritmo feroz da colonização da Cisjordânia.

Ademais, Abbas fez sua “condenação” do ataque de sexta-feira a uma rádio de Israel, mas não se tem notícia de que tenha feito o mesmo para ouvidos palestinos. Logo, sua “condenação” não tem valor nenhum, a não ser para alimentar a retórica demagógica em relação à “paz” no Oriente Médio.

Ora, que paz é possível quando há quem consiga justificar a degola de crianças como uma “operação heróica”?

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