A “guerra santa” em Israel

Marcos Guterman

03 de janeiro de 2012 | 22h27

No último sábado, judeus ultra-ortodoxos fantasiaram-se de prisioneiros de campos de concentração nazistas, em Jerusalém, para protestar contra o que veem como incitação ao ódio contra eles em Israel, motivado pela sua exigência de observância estrita das normas religiosas no país. O choque causado pela imagem talvez encubra o fato de que essa tensão está na própria raiz da Israel estabelecida em 1948.

Essa Israel tenta se apresentar como algo diferente da “terra santa”  – e, no entanto, encontra-se desde sua fundação embebida em interdições religiosas. Ben Gurion, para garantir o aspecto judaico do novo Estado, essencial para justificá-lo, acertou com os ortodoxos, inclusive com os antissionistas militantes, uma espécie de “concordata” para a fundação de Israel liderada pelo sionismo – e não pelo Messias, como queriam os ultra-religiosos. Esse acordo viabilizou a arriscada aventura de juntar, num mesmo país, judeus de vários extratos ideológicos, o que, em se tratando de judeus, é receita certa para confusão. Mas mostra também como o nacionalismo sionista – embora laico e com a pretensão de criar um “novo judeu”, um “judeu musculoso”, como contraponto ao judeu vulnerável dos milênios de perseguição que redundaram na Shoah (Holocausto) – nutriu-se da matriz religiosa e deu força decisiva aos ortodoxos para interferir na política do país, principalmente a partir do final dos anos 70.

Essa interdependência fez do judaísmo em Israel um ente híbrido que se equilibra entre o vigor da liberdade intelectual e o risco permanente de retorno ao estado de isolamento característico do mundo ortodoxo, constrangendo o aspecto secular adquirido pelo judaísmo europeu no século 19 e que o tornou elemento vital na narrativa da história do Ocidente contemporâneo. Os ultra-ortodoxos (haredim) se consideram os únicos legítimos judeus, porque a secularização é vista como o fim dos judeus como “povo escolhido”. No limite, trata-se de uma tentativa de sequestro do judaísmo, que tanto aborrece os judeus laicos, queixosos da autoridade e dos privilégios estatais dados aos ortodoxos em uma Israel orgulhosamente secular.

Agora, na ânsia de afirmar suas certezas morais absolutas diante dos desafios modernos, os ultra-ortodoxos querem seqüestrar a Shoah, nada menos que a maior tragédia da história do povo judeu. Ao explorar a imagem da Shoah, alegando que estão sofrendo um “Holocausto espiritual”, os extremistas haredim reafirmam sua disposição de não ceder terreno aos seculares em Israel, jogando com o sentimento de culpa – como fazem todos os religiosos. É ainda mais vil, porém, justamente porque uma parte dos judeus ortodoxos atribui aos judeus seculares, sobretudo aos sionistas, a culpa pelo Holocausto. Em sua visão, a catástrofe que se abateu sobre o povo judeu foi conseqüência de seu afastamento da vida estritamente religiosa e da interferência política no destino ditado pela Providência. É como se dissessem que, se todos se comportassem como eles, afastando-se da aventura nacionalista e vivendo exclusivamente segundo a Torá, Deus não teria enviado os nazistas para castigá-los. Pior: para os ultra-ortodoxos, os judeus não devem nem se defender se mais alguém resolver eliminá-los no futuro; em sua visão, os judeus serão protegidos por Deus, se assim merecerem.

Agora, porém, os extremistas haredim foram muito mais longe. Ao vestirem-se como prisioneiros de campos de concentração, eles transferiram aos judeus laicos o papel de “nazistas”, que estariam eliminando os “verdadeiros judeus” e, com isso, desafiando o próprio Deus. É um passo além do aceitável nessa guerra santa obscurantista dos ultra-ortodoxos em Israel, esbofeteando a mesmíssima moral que eles dizem tão ardorosamente defender.