A gênese de um grande factóide de guerra

Marcos Guterman

06 de janeiro de 2011 | 00h15

O repórter Peter Maass, então a serviço da revista Time, estava na praça Firdos, no centro de Bagdá, na tarde de 9 de abril de 2003. Ele testemunhou a gênese daquele que se tornaria o principal símbolo da Guerra do Iraque: a derrubada de uma grande estátua do ditador Saddam Hussein. Na última edição da revista New Yorker, uma reportagem de Maass mostra em detalhes que, na verdade, o que foi gerado ali não passou de um factóide – com trágicas conseqüências para o restante da guerra.

Entrevistando soldados que participaram do episódio, jornalistas que também estiveram lá e iraquianos que deram as primeiras marretadas na estátua, Maass mostra como um evento ínfimo numa campanha militar de grande envergadura acabou ganhando valor de mitologia.

A reportagem revela que, diferentemente do que pensam os teóricos da conspiração, o evento não foi orquestrado pelos militares para gerar a imagem desejada de vitória. Na verdade, uma série de circunstâncias fortuitas acabou por proporcionar o acontecimento – que foi alimentado exclusivamente pela presença da mídia no local.

Maass mostra que, se não houvesse câmeras por perto, os iraquianos não teriam começado a demolição da estátua; mostra também que a maioria dos iraquianos que estavam no local não participou do episódio nem vibrou com ele, como as imagens em enquadramentos mais fechados fazem supor; mostra, enfim, que o comando americano que autorizou os marines a ajudar a derrubar a estátua não tinha a dimensão do que estava se passando – era apenas o resultado da iniciativa pessoal de um soldado que queria ajudar um punhado de iraquianos a demolir uma símbolo da era de Saddam, como os marines haviam feito em outras oportunidades desde o início da guerra.

Mas os editores e âncoras que estavam vendo a cena pela TV perceberam o caráter supostamente “histórico” do evento. Alguns jornalistas que, como Maass, estavam no local não se entusiasmaram muito com o que viram, mas foram obrigados por seus chefes a turbinar a cobertura, já que as imagens estavam sendo transmitidas para o mundo todo com vivo interesse. Mesmo jornalistas de revistas e jornais sentiram a pressão. Um deles, Robert Collier, do San Francisco Chronicle, contou ter mandado um texto para seu jornal dizendo que havia poucos iraquianos na praça Firdos e que eles não estavam muito entusiasmados. No dia seguinte, a versão publicada dizia que “uma multidão em júbilo expressou sua aprovação”, enquanto iraquianos gritavam “Estamos livres! Obrigado, presidente Bush!”. Collier comentou mais tarde: “Posso dizer claramente que houve interferência editorial no meu trabalho. Eles (os editores) capricharam no triunfalismo. Eu disse a eles que não via a importância histórica do evento”.

Os programas jornalísticos da TV americana exploraram o caso de modo intenso. Na CNN, o âncora Bill Hemmer comparou a imagem à queda do Muro de Berlim. “Isso transcende tudo o que eu já tinha visto”, comentou Brit Hume, da Fox, enquanto narrava a queda da estátua. A CNN deslocou o repórter Walter Rodgers, que cobria os saques e os tumultos em outras áreas de Bagdá, para acompanhar a derrubada. A guerra de verdade e seus efeitos trágicos foi substituída pela imagem de triunfo na praça Firdos. “Imagens são o leite materno da TV”, justificou Rodgers. “E aquela era uma baita imagem.” A transmissão da BBC, que pode ser vista aqui, prova o êxtase da cobertura, que nada teve de jornalística.

O problema, como mostra Maass, é que a imagem da derrubada da estátua convenceu muita gente no governo Bush e boa parte da imprensa de que vencer a guerra era só uma questão de tempo.

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