A desmoralização da heterodoxia

Marcos Guterman

14 de agosto de 2009 | 12h44

Em sua coluna na Folha de hoje (aqui, só para assinantes), o senador José Sarney defende a atual classe política, em particular o presidente Lula, ao dizer que “vivemos um tempo de mudanças, em que a composição do corpo político democratizou-se, saiu do círculo de fogo elitista das camadas mais privilegiadas e desceu às massas, a operários e trabalhadores, a líderes populares, que às vezes chocam pela formação de buscar objetivos mesmo com métodos heterodoxos”. Com isso, e ao dizer que essa é “uma transformação que veio para ficar”, Sarney delimitou os campos da atual crise política nacional: há a “elite”, representada pela imprensa e pela oposição, e há o “corpo político democrático”, unido ao “povo”. Toda crítica ao Parlamento e ao Executivo, portanto, emana das “cassandras da maledicência”, para usar outra expressão inspirada de Sarney em seu texto.

Mais interessante, porém, é a defesa de Sarney dos métodos dessa classe política. Todo o conjunto de violações éticas verificadas no Senado nos últimos tempos é qualificado pelo senador simplesmente como parte da “realização imperfeita de seus valores” nessa “construção de pontes”. O senador – que se gaba de sua biografia de republicano e, ao mesmo tempo, não vê problemas em arranjar emprego no Senado para o namorado da neta porque, afinal, nenhum avô recusaria um pedido desses – diz que o que as “cassandras” vêem como retrocesso é, na verdade, “um avanço social”. Ou seja, Sarney, no frigir dos ovos, apela à idéia de que a defesa da retidão moral na política deveria ser revista em nome do imperativo do atendimento às “massas”. É a desmoralização da heterodoxia.

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