A “decadência” dos EUA, vista em perspectiva

Marcos Guterman

08 de agosto de 2011 | 18h50

O diplomata Rubens Ricupero, que foi embaixador do Brasil nos EUA, conversou com o blog a respeito da percepção de que os americanos estão em decadência. A entrevista será publicada no Estadão em breve, junto com a opinião de outros especialistas sobre o tema. Um trecho significativo é o que segue:

“Eu vivi nos EUA duas vezes. Na primeira vez, eu era conselheiro da Embaixada do Brasil, em meados dos anos 70, numa época em que também havia essa percepção da decadência. Foi a época de Watergate – eu assisti a renúncia do Nixon. Houve também a derrota no Vietnã – aquela retirada de Saigon, com os helicópteros saindo, você não imagina o impacto que aquilo teve nos EUA na época. E aquilo coincidiu com as filas nos postos para abastecer o carro, porque houve os dois choques do petróleo. Quando eu saí de lá, em 1977, o presidente já era o Jimmy Carter, que falava muito do sentimento de “malaise”, o mal-estar. Isso chegou a um ponto muito baixo com aquele episódio dos reféns na Embaixada dos EUA em Teerã (1979). Mas logo depois teve a eleição do Reagan, em parte por causa disso, e ele presidiu uma recuperação espetacular – econômica, militar e em termos de poder. Veja como é uma coisa perigosa extrair conclusões muito apressadas. E naquela época, mesmo na recuperação do Reagan, todo mundo achava que o Japão ia se tornar a maior potência do mundo. (…) Quando eu fui embaixador nos EUA, de 1991 a 1993, o meu colega de maior influência no grupo latino-americano era o embaixador do México, porque eles estavam negociando o Nafta; então, ele era o único que era paparicado pelos americanos. Pois bem. Esse homem tinha mandado os filhos, dois meninos, estudarem numa escola japonesa, porque ele achava que o japonês era a língua do futuro. Hoje em dia é o chinês… Eu conto essas coisas porque há sempre a tendência de extrapolar o que está acontecendo, tanto de bem quanto de mal”.

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