A culpa pelo naufrágio do Titanic é do capitalismo

Marcos Guterman

14 de abril de 2012 | 10h00

Um artigo publicado em 18 de abril de 1912 no jornal judaico americano Forward a propósito do Titanic, quatro dias depois do naufrágio, é um pequeno tesouro. Fiel à linha editorial à esquerda, o texto resume a angústia do mundo ocidental, às vésperas da Primeira Guerra, diante do avanço do capitalismo industrial e das profundas mudanças operadas por ele na sociedade desde o século anterior. Para o articulista, a culpa pelo naufrágio “é do espírito apressado do capitalismo selvagem”, que busca a acumulação desenfreada de riqueza no menor espaço de tempo possível.

Segundo o texto, havia, na época, uma competição para saber que companhia de navegação tinha os navios mais rápidos. Não fosse por essa motivação, o Titanic não teria se deslocado tão velozmente nem teria escolhido um “atalho” – uma região coalhada de icebergs – para chegar a Nova York algumas horas antes do previsto.

O pior, porém, diz o articulista, é que o capitão do Titanic sabia dos riscos, mas resolveu encará-los assim mesmo, para cumprir sua única tarefa: “Velocidade, velocidade, velocidade! Pressa! Pressa! Pressa!”.

A vida sob o capitalismo emula essa competição, lamenta o texto. “Tempo é dinheiro. E dinheiro é tudo. Aparentemente, economizar tempo é mais importante que salvar vidas.” A ironia é que, se o Titanic era um “paraíso flutuante”, como se dizia dele, então não havia nenhum motivo para ter pressa. Mas, para o articulista, a propaganda mal escondia o único objetivo do navio: obter tanto lucro quanto possível. O Titanic resultou de um grande investimento, e quanto mais rápido ele chegasse a seu destino, mais lucrativo ele seria. “A vida das pessoas e sua felicidade são os meios para os fins, que são os lucros.”

O texto termina com uma reflexão sobre os limites do capitalismo de então: “O Titanic é um símbolo para toda a humanidade. Somos todos passageiros”.

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