A "crise dos mísseis", agora com Obama

Marcos Guterman

06 de abril de 2009 | 11h11

O governo de Barack Obama se viu pela primeira vez confrontado com uma grave crise geopolítica internacional, com o lançamento do que pode ser um míssil balístico norte-coreano de longo alcance, que seria capaz de atingir os EUA. Se foi um fracasso, como dizem os americanos, ou um sucesso, como alegam os norte-coreanos, é irrelevante.

O que importa é que a Coréia do Norte claramente já domina uma tecnologia que pode se converter em ameaça direta a seus vizinhos e eventualmente aos EUA, razão pela qual Obama se manifestou de modo claro sobre o teste, dizendo que se tratava de uma violação das obrigações norte-coreanas perante a ONU.

O cálculo de Pyongyang está baseado no apoio chinês e russo no Conselho de Segurança da ONU e, mais do que isso, na disposição americana de negociar. É improvável que os EUA, apesar do tom de Obama, deixem a diplomacia de lado em relação à Coréia do Norte. Até porque os americanos vão anunciar um sensível corte do orçamento militar que inclui os sistemas de defesa antimísseis. Para muita gente, é um erro estratégico, que manda mensagens equivocadas para países como Coréia do Norte e Irã sobre a vontade dos EUA de confrontar o desafio nuclear que se avizinha.

Em 1962, o então presidente americano, John Kennedy, agiu rapidamente e com firmeza para conter as pretensões soviéticas de instalar uma base de mísseis em Cuba. Foi esperto o bastante para manter a porta da diplomacia aberta, oferecendo o desmonte de uma base americana de mísseis na Turquia em troca do recuo de Moscou no Caribe. Funcionou também porque o Kremlin, a despeito da retórica, não queria arriscar um tudo-ou-nada que, no frigir dos ovos, prejudicaria seus objetivos de longo prazo.

No caso da Coréia do Norte, porém, o que temos é um país delinqüente, que aprendeu a jogar e que não tem nada a perder.

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