A Comissão da Verdade buscará qual verdade?

Marcos Guterman

06 de março de 2012 | 09h30

Que verdade buscará a Comissão da Verdade, se ela, a verdade, já é bastante conhecida? Todos sabemos o que houve no Brasil entre 1964 e 1985, embora alguma coisa nova ainda possa surgir sobre o regime militar, provavelmente apenas para acrescentar detalhes. O que se deveria procurar, com a comissão, é a atribuição de responsabilidades, mas isso não vai acontecer, por causa da Lei de Anistia e também porque não é do interesse do governo.

Ademais, como diz o historiador Carlos Fico, a simples possibilidade de punição, agora, inibirá os que poderiam prestar importantes depoimentos à comissão. A tendência, desse modo, é ficarmos apenas na superfície política do problema, sem entrarmos no caráter jurídico e moral.

Então, os documentos que essa comissão produzirá poderão servir somente para aplacar consciências e manufaturar uma versão dos fatos que possa ser aceita por todos os envolvidos, o que, do ponto de vista historiográfico, é uma fantasia. A intenção, parece, é deixar o passado “para trás”, saneando a história do Brasil para torná-la menos sujeita a tensões, sobretudo num governo cuja presidente é justamente parte daquele processo. A atual crise entre Dilma e os militares, causada por uma crítica de oficiais da reserva ao silêncio da presidente ante manifestações de auxiliares seus em defesa da punição de agentes da repressão, mostra que a “verdade” tem sobre ela muitas e impenetráveis camadas de certezas absolutas – a dos militares, que rasgaram a Constituição com o propósito de defendê-la, e a dos militantes da luta armada, que hoje dizem ter defendido a “democracia”, embora militassem em movimentos favoráveis à “ditadura do proletariado”. Se ninguém recuar dessas certezas, a comissão tende a ser totalmente inútil.

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