A carta de Obama a Lula: modos de ler

Marcos Guterman

27 Maio 2010 | 20h56

Há duas maneiras de ler a agora famosa carta do presidente dos EUA, Barack Obama, a Lula a respeito do programa nuclear iraniano. Uma maneira é a oficial, que o Itamaraty tratou de espalhar: de acordo com essa versão, a mensagem mostra que Obama defendia o mesmíssimo acordo que subsequentemente foi alcançado por Lula em Teerã. Ao apostar nessa interpretação, o governo brasileiro tem um objetivo muito claro: pintar os EUA como intransigentes, dispostos unicamente a punir o Irã. Daqui, parte-se para a conclusão de que os americanos, no fundo, ficaram irritados porque as tais “potências emergentes” (Brasil e Turquia) se intrometeram onde não foram chamadas. Ou seja: o episódio da carta de Obama tem uma importância transcendental, ao revelar os últimos suspiros do decadente “império ianque”.

A outra maneira de ler a carta é menos militante. Em seu texto, Obama se dedica a mostrar a Lula que confiar no presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, não é prudente. Como forma de provar isso, o americano relembra que a oferta anterior sobre a troca de combustível nuclear foi aceita e, depois, rejeitada por Teerã. Obama deixa claro que se refere a algo do passado, que não existe mais. A embaixadora dos EUA na ONU, Susan Rice, disse que a carta não pode ser tomada isoladamente, fora de seu contexto – o que é uma coisa óbvia, a não ser para os antiamericanos.

Diferentemente do que sustenta a versão ingênua, a carta não defende aquele acordo tal como havia sido formulado – afinal, as circunstâncias haviam mudado. Na verdade, Obama defendeu apenas o espírito daquele acordo, que visava a comprometer o Irã a respeitar as exigências da comunidade internacional no que concerne ao enriquecimento de seu material nuclear. Como o Irã, depois de assinar o acordo com Brasil e Turquia, garantiu que continuaria a enriquecer seu urânio, contrariando o que exige a ONU, ficou claro que Lula foi usado numa encenação caprichada, apenas para ganhar tempo. Nada disso escapou aos diplomatas de quase todo o Conselho de Segurança da ONU, que mantiveram viva a perspectiva de impor novas sanções ao Irã, a despeito do tal “acordo”.

Não foi apenas o governo americano que farejou trapaça no teatrinho de Ahmadinejad. As gestões contra os iranianos ganharam apoio de China e Rússia, tradicionais aliados de Teerã – Moscou chegou a acusar o iraniano de fazer “demagogia”, uma definição bastante precisa. Logo, é antiamericanismo tosco singularizar a posição dos EUA a respeito do tema, já que outros países, de diferentes matizes ideológicos, compartilham da opinião de Washington.

O vazamento da carta de Obama, que em si é uma indelicadeza diplomática, está claramente voltado para demonizar os EUA, com óbvios objetivos políticos – trata-se de mais uma tentativa do atual governo brasileiro de se afirmar por meio da oposição à Casa Branca. Mostra ainda que o Itamaraty está mais empenhado na construção do prestígio de Lula, à custa dos americanos, do que em engajar-se seriamente na resolução do impasse com o Irã. A diplomacia brasileira, que sempre se notabilizou pela inteligência, está se prestando a uma agenda que lhe é estranha e que ameaça comprometer sua boa imagem no mundo.