A aposta de Kadafi

Marcos Guterman

28 de fevereiro de 2011 | 23h30

Anunciadas com estardalhaço, as sanções de EUA, União Europeia e ONU contra a Líbia deverão ter efeito limitado. Com exceção do embargo de armas, os demais, sobretudo os econômicos, talvez não sejam mais do que uma mensagem política, já que só terão algum resultado no longo prazo – e isso pode representar a diferença entre a vida e a morte de milhares de líbios.

Resta a opção da força – mas, diante do quadro de incertezas sobre o perfil dos rebeldes e mesmo sobre a real capacidade de Kadafi, é improvável que a ação, se houver, seja direta. Além de difícil do ponto de vista militar, a invasão por terra seria um desastre político. É mais factível que se estabeleça uma zona de exclusão aérea, por meio da qual se impediria que Kadafi bombardeasse seus inimigos. Como a força de Kadafi não está no ar, mas na terra, mesmo essa zona de exclusão pode se provar ineficaz.

Será difícil, ademais, evitar que uma intervenção militar na Líbia, mesmo com intenções nobres, seja interpretada como uma repetição das desastrosas operações no Iraque e no Afeganistão, que tinham como intenção derrubar regimes hostis aos EUA e lá instalar governos “democráticos”. Se Kadafi cair, terá de ser por causa da vontade e da ação dos próprios líbios, e não pela “bondade” de um ator externo.

Desse modo, os próprios americanos parecem concordar que uma ação militar direta na Líbia não é desejável, e essa parece ser a aposta de Kadafi: manter-se no poder pela falta de alternativas imediatas de seus mais poderosos inimigos.

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