A aposta arriscada da Turquia

Marcos Guterman

06 Setembro 2011 | 22h37

A Turquia decidiu jogar alto. Anunciou mais algumas sanções comerciais para mostrar a Israel que ficou irritada com sua indisposição em desculpar-se pelo ataque à famosa “flotilha da liberdade” – que, com apoio informal de Ancara, tentou furar o bloqueio marítimo israelense a Gaza. Para Israel, que tem na Turquia um grande parceiro econômico, pode ser um baque e tanto. Stanley Fischer, o presidente do banco central israelense, deixou claro que Israel não pode se dar ao luxo de manter relações estremecidas com a Turquia, de longe a mais vibrante economia da região. Os críticos do atual governo israelense atribuem essa situação unicamente à intransigência do premiê Binyamin Netanyahu, que se recusa a dialogar nos termos que a Turquia impõe. Mas a destruição das relações turco-israelenses atende a uma agenda política bem mais ampla.

Por sua alardeada disposição de questionar Israel, reafirmada nesta terça-feira – mas originada em 2003, com a ascensão ao poder do partido islâmico que sustenta o premiê Recep Tayyip Erdogan –, a Turquia candidatou-se a líder do mundo árabe-islâmico. Ao mesmo tempo em que se afasta de seus compromissos com os israelenses, sinaliza aproximação com quem tem potencial de atrito com Israel. Foi assim com o Irã, ao tentar romper o isolamento de Teerã (com a vergonhosa cooperação do Brasil); foi assim com sua aproximação com o Hamas; e, na semana que vem, Erdogan deve firmar acordos de cooperação militar com o novo governo egípcio, que já deu sinais de hostilidade em relação aos israelenses.

O apoio turco à causa palestina, em nome de imperativos humanitários, é meramente cosmético. Essa mesma Turquia, como se sabe, demonstra indiferença olímpica em relação ao massacre dos sírios e pouco se esforçou para ajudar os líbios perseguidos por Kadafi. Ademais, sua indignação em relação aos bombardeios de Israel contra os palestinos é uma piada de mau gosto ante os bombardeios turcos contra os curdos, que nunca cessaram – e que, curiosamente, usam tecnologia israelense.

No entanto, isso tudo é irrelevante, porque está claro que a exploração turca da questão palestina é mera estratégia política, e não plataforma moral. O maior problema para Erdogan, nesse sentido, é que sua guinada para o mundo árabe-islâmico, acentuada depois de ter ficado claro que a União Europeia não aceitaria a adesão turca tão facilmente, mina a ainda boa relação da Turquia com o Ocidente. Mesmo os EUA – a despeito da recusa turca de ceder suas bases para o esforço de guerra americano no Iraque, em 2003, e do atual namoro turco com os aiatolás iranianos – ainda nutrem laços adultos com Ancara, mas as condições para que eles se mantenham estão se degradando rapidamente.

Por outro lado, a Turquia não é um país árabe e, mesmo que Erdogan aposte na religião islâmica como um aspecto catalisador, é improvável que o país seja visto como uma liderança natural na região ­– a Síria, por exemplo, nutre considerável reserva em relação aos turcos.

Desse modo, a Turquia abandonou uma posição bastante confortável e arrisca-se num terreno em que ainda muito está longe de ser bem-vinda.