Vozes da polarização

Acusações contra a mídia e apologia da polarização caminham abraçadas nos mesmos discursos, cujos autores não se dão conta da contradição lógica em que se envolvem.

Marco Aurélio Nogueira

26 de novembro de 2019 | 11h18

Ouvem-se, de forma recorrente, nas redes e fora delas, afirmações de que a polarização Lula x Bolsonaro não passa de uma “invenção da mídia”, ou da grande imprensa, feita sob medida para prejudicar o PT e apoiar o “centro democrático”.

Do mesmo modo, com idêntica veemência, e principalmente à esquerda, fala-se que Lula é, sim, o oposto perfeito de Bolsonaro – o contrário dele – e deve combatê-lo sem tréguas, ou seja, deve com ele polarizar.

Amigos e seguidores de Bolsonaro procedem da mesma maneira.

Não deixa de ser curioso que a acusação contra a mídia e a apologia da polarização caminhem abraçadas nos mesmos discursos, cujos autores não se dão conta da contradição lógica em que se envolvem.

Tal incongruência é fruto de uma visão torta da política e do processo político em curso. Ver a mídia como conspiradora permanente mistura-se com uma defesa da polarização como se ela não existisse na vida, mas seria fruto de uma criação. Ou seja, seria produto de uma decisão, em parte unilateral (a polarização do bem) e em parte artificial (a polarização do mal).

A deputada Gleisi Hoffmann, reeleita para a presidência nacional do PT, tem contribuído sistematicamente para generalizar essa incongruência e, por extensão, para disseminar confusão. Seu recente discurso no congresso do partido, por exemplo, reiterou a acusação às “invencionices” da mídia e o “desejo de luta” da esquerda, sugerindo que o PT deve estar preparado para o que der e vier.

O próprio PT saiu do congresso oscilando entre polarizar com a extrema-direita, formar uma “frente ampla” e fortalecer a aliança com os partidos de esquerda.

Polarizar e explorar o conflito são ações inerentes à política. Política é luta entre diferentes visões do mundo. Quem não vê isso não sabe bem do que está falando. Mas da política democrática não fazem parte a fabricação de inimigos ocultos e a atribuição à animosidade retórica um poder de criação que ela não tem. Qualquer “enfrentamento positivo”, ou seja, destinado a solucionar problemas e a promover avanços civilizatórios, precisa de mais, muito mais.

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