Vargas Llosa e as ditaduras latino-americanas

Vargas Llosa e as ditaduras latino-americanas

Novo romance do escritor peruano revisita o golpe apoiado pela CIA e pelos EUA contra o presidente Jacobo Árbenz, na Guatemala, em 1954

Marco Aurélio Nogueira

19 de fevereiro de 2020 | 18h23

Vinte anos depois de A Festa do Bode (2000), em que fomos apresentados às misérias da longeva e sangrenta ditadura de Rafael Trujillo na Republicana Dominicana, o novo romance de Mario Vargas Llosa se passa na Guatemala. O escritor peruano segue uma trilha literária voltada para denunciar crimes, torpezas e violências dos governos ditatoriais que infestaram a América Latina. Uma saga que remonta ao grandioso Conversa na Catedral (1969), inspirada combinação de ficção e reportagem política que conta a história da ditadura direitista de Manuel Odría, no Peru dos anos 1950.

Tiempos Recios (Alfaguara, 2019, ainda sem tradução em português) é um romance que se lê de um só fôlego, com prazer e espanto. Prazer pela escrita sempre precisa e empolgante, marca registrada do escritor. Espanto – com bastante de horror – pelo relato dos fatos, que nos põem face a um capítulo quase absurdo da história latino-americana.

Os eventos poderiam ser corriqueiros. Conspirações, golpes militares, ditadores corruptos e violentos, elites hipócritas e predatórias, intervenções norte-americanas, CIA e interesses imperialistas. Na Guatemala de 1954, a derrubada do governo de Jacobo Árbenz por um putsch organizado por Castillo Armas, apoiado e financiado pelos EUA,  teve tudo o que tingia a paisagem do subcontinente, mas foi construído a partir de uma mentira: a acusação feita pelo governo Eisenhower (Departamento de Estado, John Foster Dulles) de que Árbenz planejava a instalação de uma filial do comunismo soviético no país e na região. A Guerra Fria fornecia o clima e o contexto, a proteção à United Fruit – empresa que explorava a agricultura do país há anos – seria o fator econômico que ajudaria a fomentar o anticomunismo. E nome disso, e para reagir a uma lei de reforma agrária promulgada por Árbenz e que nacionalizava pequena parte (10%) das terras da empresa, os EUA simplesmente invadiram o pequeno país.

Vargas Llosa acredita que ali, naqueles anos agitados, foram plantados alguns dos germes que contaminariam a América Latina nas décadas seguintes. Repete a famosa pergunta de um dos personagens das Conversas na Catedral: “Em que momento o Peru se fodeu?”. Para ele, fixou-se então um padrão que bloqueou o desenvolvimento da democracia e empurrou as esquerdas para a ideia de revolução armada. Parece querer dizer que em 1954 teve início um ciclo que se prolongou no tempo e deixou marcas que chegam aos dias atuais, ajudando a explicar o atraso de tantos países, a miséria e a desigualdade social, a baixa aderência dos valores liberal-democráticos.

Tiempos Recios é um romance que tem muito de reportagem e pesquisa. Mas o fio condutor é a ficção. Vargas Llosa se permite, livremente, recriar os personagens principais, inventar alguns outros, agregar detalhes a situações. Entra na mente dos protagonistas, para assim salientar seus dramas pessoais, suas loucuras, idiossincrasias e paranoias, seus sofrimentos existenciais. Faz de seus personagens figuras humanas, patéticas, que se movem por interesses mesquinhos e pela luta insana para sobreviver. São atores vivos, em boa medida uma mescla de vítimas e responsáveis, testemunhas e criminosos. Têm taras, vícios, prazeres e obsessões, amam-se entre si, movidos quase sempre por uma sexualidade desenfreada e pela busca de ruptura com a solidão.

Marta Borrero, a Martita, filha da elite guatemalteca, é levada a se envolver com políticos, empresários e agentes da CIA depois de ser deserdada pelo pai. Torna-se amante de Castillo Armas, mas foge da Guatemala com o sinistro Johnny Abbes. Converte-se em propagandista radiofônica de Trujillo em Santo Domingo. Sua trajetória é cômica e trágica, parece fundada na pura imaginação. Ao final do romance, porém, Vargas Llosa a entrevista nos EUA, prova de se trata de uma personagem de carne e osso. Seu amante Abbes, praticante de tantos horrores, termina massacrado pelos tontons macoutes no Haiti. Farsa, verdade, ironia? Melhor ficar com a ficção.

O autor peruano é um mestre da narrativa. Prende o leitor, que o acompanha capítulo após capítulo. Além da escrita preciosa, seus romances não se furtam de deixar transparecer as posições com que Llosa vem sendo conhecido. É um traço que pode incomodar, mas que não surge de forma postiça no texto, como mera propaganda.

Anticomunista e liberal convicto (como se vê em O chamado da tribo, de 2018), Vargas Llosa vive a proclamar os erros das esquerdas, especialmente quando centradas no populismo e na revolução social. Exagera e muitas vezes é unilateral, sectário demais. Não se trata, porém, de um reacionário, e sim de um democrata. A denúncia que faz das ditaduras de direita na América Latina é pungente. Tiempos Recios critica com firmeza a política intervencionista dos EUA, mostra a exploração impiedosa da United Fruit e a podridão que cercou os governos nascidos do golpe militar.

O romance defende o progressista Jacobo Árbenz e seu governo. Apresenta-o como um democrata americanista, que queria reformas sociais para aproximar a Guatemala dos padrões que julgava existir nos EUA. Inseguro, não teve qualquer disposição para se agarrar ao poder. Renunciou ao perceber o golpe inevitável, recusando-se a organizar qualquer tipo de resistência popular. Saiu de cena e a Guatemala mergulhou no inferno. Seu contraponto, Castillo Armas, é retratado como a encarnação do mal, feio, complexado, pleno de maldade. Um segundo golpe antecipa o fim de seu governo e dele próprio.

Com esses personagens reais e pintados com boas doses de imaginação, Vargas Llosa constrói um magnético roteiro dos acontecimentos. Tiempos Recios é um bom romance. Não sei dizer como se enquadra na vasta obra do autor. Certo é que reitera seu artesanato literário e nos leva a refletir sobre a hipocrisia política, a fraqueza institucional, a sujeira prática e ideológica que escorre pela história da América Latina, jaz em seu subsolo e precisa ser bem conhecida para poder ser superada. O anticomunismo mobilizado para abater Árbenz não foi somente um expediente da guerra fria, instalou-se como um recurso de poder que se expandiria e invadiria o século XXI.

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