Urnas de 2016 agitam a política e revelam impasses da sociedade

Marco Aurélio Nogueira

03 de outubro de 2016 | 19h13

Com as eleições de ontem, 2/10/16, fechou-se um capítulo da historia política brasileira.

Nele se entrelaçaram a redemocratização, a projeção da socialdemocracia e da esquerda, a reconfiguração da sociedade civil, a entrada da sociedade na turbulência da modernidade reflexiva e do capitalismo 2.0, a forte judicialização da política, a ascensão, a glória, o declínio e o sofrimento de um grande partido de massas, atingido no peito pelos danos colaterais de sua própria práxis política, que levaram ao impeachment de um de seus presidentes, à prisão de vários de seus lideres, à rejeição social e, por fim, a uma avassaladora derrota eleitoral.

O principal problema é que o capítulo que se seguirá, a partir de agora, não se anuncia como de qualidade superior, não parece destinado a nos reservar grandes emoções e nem a ser protagonizado por figuras épicas ou empolgantes. O que vemos pela frente é um ambiente mais morno e errático, uma sociedade desorientada e excitada, uma trama em busca desesperada de personagens que façam a diferença, como num bom romance realista.

São 92 os municípios estratégicos para se avaliar o impacto das eleições: estão aí as 26 capitais e as cidades com mais de 200 mil eleitores. Elas concentram cerca de 40 milhões de eleitores. Nessas cidades, o PT foi praticamente expulso. Vendo o país no seu todo, o partido perdeu cerca de 400 das 630 cidades que conquistara nas eleições de 2012. O retrocesso foi numericamente expressivo: 60%. Incluída aí a joia da coroa, São Paulo, a derrota dolorosa é dolorosa e precisará de tempo para ser cauterizada e superada, sobretudo porque exigirá do partido muita energia para se renovar, o que, em política, é sempre algo difícil e espinhoso.

Algumas tendências se afirmaram nas urnas. Destaco as seguintes

(1) Encolhimento do PT e reorganização das esquerdas. PSOL, PSB, PPS, PDT, Rede e PCdoB irão disputar um patrimônio que parecia eterno, que não desapareceu e continuará de pé mas que não poderá mais ser gerido como vinha sendo até então. O patrimônio da esquerda, cujo epicentro esteve ocupado sem contestação pelo PT nas últimas décadas, será, a partir de agora, alvo de forte disputa. O grande problema é que o ambiente geral não é muito favorável a postulações de esquerda, como comprova, de resto, o próprio desempenho daquelas siglas nas eleições de 2016.

(2) Melhoria do peso relativo do PSDB, mas sem ganhos em termos de unidade partidária. O partido cresceu eleitoralmente (aumentou em 15% o número de prefeituras conquistadas), suas correntes internas se agitaram, novos nomes apareceram, Alckmin consolidou sua projeção, empurrando alguns protagonistas tradicionais para a margem. Porém, tudo somado, o partido segue em ritmo de busca de identidade.

(3) Estagnação do PMDB, vetado e rejeitado em SP, RJ e BH, mas mantendo capilaridade nos pequenos e médios municípios: nas 5568 cidades do país, o partido permaneceu com o maior número de prefeitos, 1127 (cresceu 1,2%). Porém, onde a opinião pública está mais bem estruturada, ou seja, nas grandes cidades, o PMDB é uma sombra, sem cara e sem alma.

(4) Atrito social com a representação política. Eleitorado frustrado, sem maior paixão política, descrente do que podem fazer os políticos e os partidos, irritado com a vida que leva. Base para uma fuga da sociedade em relação à política, seja rumo à alienação, seja rumo à contestação de “tudo o que está aí”.

(5) Flutuação e volatilidade das escolhas eleitorais. Nada parece se fixar e tudo muda com a velocidade da luz. Ou das redes.

(6) Nova elevação da porcentagem de votos nulos, brancos e abstenções: em 2016 foram 38,5%, contra 31,26% em 2012 na cidade de São Paulo. É um indicador do aumento do desinteresse dos cidadãos pela política ou da difícil relação da política com a vida cotidiana. O avanço tem sido constante desde 1996. Entre 1996 e 2008, as eleições municipais na capital paulista tinham cerca de 23% de seus eleitores fora da escolha do prefeito –considerada a soma de ausentes, votos nulos e brancos. Em 1996, foram 24% dos eleitores. Em 2000, o índice se manteve. Em 2004, a taxa baixou para 21,6%. Em 2008, foi de 22%. Os saltos mais pronunciados se deram a partir de 2012.

(7) Maior visibilidade e maior competitividade das propostas conservadoras, tanto da face liberal-conservadora, quanto da face reacionária. O que exigirá, dos cidadãos, dos pensadores e dos estudiosos um aperfeiçoamento radical em termos de análise das ideias políticas. Não iremos muito longe se ficarmos aprisionados a blocos uniformes, como se todos os conservadores fossem uma coisa só, a esquerda não tivesse distinções e os liberais formassem um agregado globalmente inimigo da justiça social. O conservadorismo que cresceu merece, em particular, estudos mais cuidadosos, que refinem as lentes da análise.

Antes da eleição, escrevi que o polo conservador, ainda que deva ser considerado postulante digno e legítimo, oferece pouco para a cidade: não tem generosidade para “empoderar” os cidadãos, vê-se como um vetor superior à comunidade, defensor do fortalecimento unilateral da instância administrativa, convertida em saída “racional”. A política, para esse polo, não seria “uma solução, mas um estorvo a ser tolerado e subordinado ao Executivo”.

Como está no texto, João Dória (PSDB), eleito ontem em São Paulo no primeiro turno, vocalizou durante a campanha “um conservadorismo adocicado”, buscando fixar uma imagem de empresário que “sempre trabalhou” e “é administrador, não político”. Terá de provar que pode fazer algo significativo para a cidade.

A política feita por técnicos é uma forma de política. Podemos não gostar dela, mas não há porque pô-la fora da política. Tem dois braços. Um aponta para o aprisionamento rebaixado da política, a prevalência unilateral do mercado, da racionalidade instrumental, do autoritarismo e do questionamento explícito ou dissimulado da democracia. Outro braço aponta para um distanciamento do modo tradicional de fazer política, dos condicionamentos e “externalidades” impostas pelos partidos políticos, procura traduzir uma tentativa de dar face mais técnica à democracia. Tudo indica que foi este segundo braço que prevaleceu em São Paulo. A ver, claro.

O discurso de Dória foi usado para que ele ganhasse votos, empurrado pelo marketing. Funcionou, mas talvez o candidato nem sequer soubesse o que estava de fato dizendo. Tivesse dito “quero fazer política sem me dobrar ao jogo da pequena política e dando mais espaço para a visão técnica e para uma democracia de maior qualidade” e a frase soaria como música para os que pensam a política em nova chave. Não o fez, deixando um rastro que terá de ser esclarecido.

Para São Paulo, Dória é uma aposta de risco, mas a política é dinâmica. Dependendo do que acontecer, ele poderá rever o discurso de campanha e avançar rumo a uma ideia de política apoiada no “fator técnico” e na recusa das injunções da “pequena política”. Deste movimento (para o qual será preciso haver muita política!) dependerá a avaliação que daqui a quatro anos os paulistanos farão de sua gestão.