Universo pop protesta contra assassinatos em Paris e faz pensar

Marco Aurélio Nogueira

09 de janeiro de 2015 | 12h19

A linda e badalada pop star norte-americana Rihanna veio a público se manifestar sobre o assassinato dos cartunistas de Charlie Hebdo. Segundo ela, que deixou claro ser contra “qualquer tipo de abuso, físico ou verbal”, o respeito a todos deve sempre prevalecer. Mas, acrescentou, “se querem paz, então devem parar de fazer piadas sobre tópicos sensíveis”. A liberdade não pode ser restringida, mas, pergunta, “você não se ofenderia e se magoaria se fosse um cristão ou um judeu e fizessem piada sobre seu Deus?”.

Rihanna ainda acrescentou que a religião islâmica não deve ser responsabilizada pelos atos dos três extremistas. “Estou absolutamente horrorizada e devastada com o que aconteceu. Mas vocês devem parar de culpar o Islã por isto. O islamismo é uma religião de paz, amor e fé. Não tem a ver com violência. O Profeta Maomé viveu para compartilhar amor e compaixão e não para assassinar pessoas. Todos são livres para acreditar no que quiserem. Então, parem de julgar, comecem a ajudar. E descansem em paz aqueles que faleceram”, escreveu nas redes sociais.

Não há por que esperar declarações sensatas, esclarecedoras ou profundas de pop stars, mas sempre é bom quando eles se manifestam. Mesmo que seja para deixar dúvidas no ar, como fez Rihanna, cujas palavras podem ser interpretadas como uma relativização dos atos extremistas, que seriam uma reação a “piadas sobre tópicos sensíveis”.

Muita gente que não é pop star e procura analisar com cuidado as coisas pode seguir caminho parecido. Os que não apreciam a postura anárquica de Charlie Hebdo, por exemplo, não admitem que certas atitudes do semanário sejam vistas como progressistas só por serem irreverentes. Para mostrar que não seguem como manada obediente a onda mundial de indignação, fazem reservas à conduta do semanário. Pessoas assim, num momento de empolgação crítica, podem terminar por concluir que os cartunistas colheram o que plantaram. Querem fazer crítica isenta, mas terminam no mesmo ponto de Rihanna: não brinquem com tópicos sensíveis. É algo discutível, por mais que deva ser considerado.

Melhor fez Madonna, que sabe tudo do universo pop mas está sempre um passo à frente. Também pelas redes sociais e sem perder de vista a devida publicização da mensagem inscrita em seu novo álbum (Rebel Heart, Coração rebelde), deixou clara sua posição: “Temos de respeitar todas as religiões. Mas também devemos respeitar a vida humana. Matar em nome de Deus é uma ideia do homem e não de Deus. A ignorância engendra a intolerância e o medo. Podemos lutar contra a escuridão com a luz. Somos todos Charlie!”.

A cantora indonesiana Anggun, que faz sucesso na Europa, seguiu linha parecida no Twitter. “Como chegamos a este ponto? O mundo tornou-se um lugar horrível onde o mal está em toda parte, o ódio é cultivado e a vingança é justificada”.

Na França sobretudo, mas também em vários outros países, as celebridades não se furtaram de tomar posição. Exemplo eloquente disso é o vídeo compilado pelo Grand Journal de Canal+, com pungentes declarações de numerosos artistas, esportistas, jornalistas e intelectuais em torno da mensagem unitária “Je suis Charlie”. O vídeo ganhou dimensão de homenagem póstuma, mas funciona bem mais como testemunho de uma época.

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