Uma fusão para mexer nas peças do jogo político

Um partido forte não é feito somente de bancadas robustas e quadros experientes. Precisa de ideias e capacidade política, para agregar pessoas, direcioná-las e atuar de forma coerente.

Marco Aurélio Nogueira

07 de outubro de 2021 | 12h20

A fusão DEM-PSL não é algo trivial, nem mais do mesmo. Ainda que sem grandes revelações programáticas ou doutrinárias, ela contém pretensões hegemônicas claras. Ao recusar o rótulo Liberal-Democrata e adotar a sigla União Brasil, o novo partido evidenciou que deseja pelejar no terreno em que hoje habita o bolsonarismo, ao menos em parte, com seus arroubos patrioteiros.

Diferentemente do que foi o anterior abrigo de Bolsonaro (o PSL original), o novo partido não bate no peito para proclamar vetos antipetistas ou anticomunistas, embora nada tenha a ver com qualquer um desses campos políticos e ideológicos. Sua vertente predominante parece ser o pragmatismo, mais até do que o fisiologismo típico do “Centrão”.

O partido nascido da fusão, se de fato se materializar e avançar, poderá colocar ordem na centro-direita brasileira, hoje pulverizada em várias agremiações sem perfil bem definido. A ideia é funcionar como um polo magnético que atraia tanto a direita moderada e os liberais conservadores quanto os trânsfugas do bolsonarismo. Flertes claros também deverão ser feitos em direção ao que se pode chamar de políticos tradicionais, praticantes de estilos de fazer política que remontam ao velho coronelismo, mais modernizado ou menos.

Desse ponto de vista, a iniciativa é uma nova pedra que surge no caminho de Bolsonaro, precisamente por buscar o diálogo com setores a ele ligados e pretender enfiar uma cunha para distanciar (ou mesmo separar) a direita liberal-conservadora-tradicionalista e a extrema-direita que ainda se mantém na órbita do bolsonarismo, em parte por falta de opções.

Se isso dará certo só o tempo dirá. O novo partido terá de mostrar que possui alto poder de articulação e negociação, além de boas bancadas parlamentares e recursos financeiros. Se avançar, dialogará com as amplas correntes que postulam aquilo que vem sendo chamada de “terceira via”.

Com a reunião dos deputados e senadores do DEM e do PSL no Congresso, o novo partido nasce forte, mas deverá perder parlamentares descontentes ou fieis a Bolsonaro. Não se sabe ainda qual será o efeito das investidas que o Palácio do Planalto fará sobre as bases partidárias. Passará algum tempo até que se possa dimensionar o real tamanho do União Brasil.

Um partido forte não é feito somente de bancadas robustas. Precisa de ideias e capacidade política, para agregar pessoas, direcioná-las e atuar de forma coerente. Não é mera reunião de quadros. Seu real poder de fogo depende de coisas que não estão dadas de antemão. O cenário, portanto, é de expectativa. O União Brasil terá de provar que é mais do que um “Centrão” vitaminado.

A disputa pela centro-direita será dura e acerba, pois todos os partidos de centro ou centro-esquerda estão interessados em fazer a mesma inflexão. Não há força política hoje que não pense em ter acesso ao centro e às áreas da direita moderada. A começar de Lula e do PT, fiéis ao plano de construir uma rota que os leve diretamente ao Planalto, pagando o preço que for necessário. Mas todas as candidaturas que pretenderem ter competitividade precisarão por ao menos um pé do campo centrista.

A reconstrução do Brasil pós-pesadelo bolsonarista não será obra de uma única força política. O sucesso dependerá de uma articulação expressiva e programática, que tenha como eixo a democracia, a Constituição e a recuperação econômico-social do País. Nem mesmo a centro-direita e o liberalismo conservador poderão fugir do desafio de reinventar o Brasil, no qual se inclui, em posição de destaque estratégico, o combate firme contra as desigualdades que corroem a sociedade e travam o futuro.

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