Uma derrota a ser digerida

Parece ter crescido, à direita, a convicção de que o presidente não pode mais desfraldar a bandeira-guia de um movimento

Marco Aurélio Nogueira

18 de novembro de 2020 | 18h40

Das várias coisas que saíram das urnas do primeiro turno de 2020, uma pode ser tida como fundamental: o eleitor fugiu da trilha que havia seguido nas eleições de 2018 e abandonou Bolsonaro, que foi o maior derrotado depois da apuração dos votos. Seus candidatos evaporaram, nenhum emplacou, nem mesmo nas Câmaras municipais, onde a presença do bolsonarismo tornou-se residual.

Há que se explicar isso. O modo como o governo federal tratou a pandemia, a postura do presidente diante de máscaras, distanciamento e vacinas, o deboche permanente, a falta de empatia, de algum modo isso foi processado pelo eleitor, mesmo que os temas da cidade tenham prevalecido e mesmo que Bolsonaro não tenha sido candidato a nada. Seu empenho patético para pedir votos soou como a evidência de que ele não tem o que mostrar à população. Faltaram resultados de governo, políticas claras, alianças construídas a sério. O País por ele governado há dois anos está estacionado, comido pela crise econômica, pelo desastre da pandemia, pela ausência de ação governamental.

Pesou também o fato do bolsonarismo não ter associação política efetiva, não ter instrumentos de ação, nem organização.  Ele é uma maçaroca de ressentimentos, fúria e ódio, temperada com uma dose impressionante de ignorância e ingenuidade. Acreditou que a família Bolsonaro e o ativismo digital seriam suficientes para dar sustentação a suas fantasias macabras e vingativas. Sem partido, o bolsonarismo naufragou no terreno político, naquele que realmente conta. E perdeu a “guerra cultural”, não porque tenha podido comemorar a derrota da esquerda, mas por não ter conseguido atualizar e fazer reverberar sua mensagem ideológica, suas pautas, especialmente as vinculadas aos costumes.

Pode-se indagar se o bolsonarismo existe de fato ou se ele se desfez como um pesadelo numa noite de tempestade. É pertinente. Mas a extrema-direita é maior do que o bolsonarismo. Ela não avançou, também foi derrotada. Tudo indica que mergulhou em um processo, que poderá ser longo, de afastamento e dissociação de Bolsonaro. Passou a não mais acreditar nele, em sua improvisação amadorística, em seu individualismo autoritário e familista, em sua falta de preparo técnico, político e intelectual. Alguma autocrítica deverá surgir por aí. Parece ter crescido, nas alas da direita “pura” e extrema, a convicção de que o presidente perdeu a mão e não tem mais condições de  desfraldar a bandeira-guia de um movimento. É algo que poderá chegar aos quartéis, e mudar outras tantas coisas.

Fortaleceu-se com isso a sensação de que o melhor caminho passa por um “centro” mais suave, democrático e aberto ao diálogo, mais preparado e ponderado. Até onde a direita extrema se dispõe a ir para se incorporar a isso e não cair no isolamento?

Não é pouca coisa. Fechadas as urnas do segundo turno, daqui a 15 dias, ficará mais fácil verificar o quanto essas constatações fazem sentido.

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