Um senador em apuros

A posição "conciliadora" e cautelosa dos poderes protege Flávio Bolsonaro, cuja narrativa não é plausível

Marco Aurélio Nogueira

05 de agosto de 2020 | 18h58

Pode ser precipitado afirmar, mas a entrevista do senador Flávio Bolsonaro, dada nessa quarta-feira ao jornal O Globo, é quase um tiro no pé.
O objetivo era se defender dos desdobramentos do caso Queiroz e a rachadinha. Mas o que ocorreu foi um esforço improdutivo para negar o que hoje está exposto à luz do sol. O senador aproveitou para atacar a Lava-Jato e elogiar Augusto Aras. Mas não se deu conta de que a Lava-Jato não está diretamente envolvida no seu caso e que Aras é chefe formal da PGR mas não tem liderança no Ministério Público, nem em qualquer outra área da Justiça.
 
A entrevista mostrou um personagem acuado, assustado, sem uma narrativa consistente, que se vale da rede de proteção fornecida por ser ele filho de quem é. Posa de vítima, quando na verdade é o principal agente do processo, com a barra mais suja do que o próprio Queiroz, que, afinal, trabalhava sob suas ordens. Ao declarar que “pode ser sim que, porventura eu tenha mandado o Queiroz pagar uma conta minha”, o senador se enrolou um pouco mais. Disse que foi mera prestação de serviço, que não há como “vincular isso a alguma espécie de esquema que eu tenha com o Queiroz”, pois isso seria “criminalizar qualquer secretário que vá pagar a conta de um patrão no banco”. 
É uma declaração estapafúrdia e auto-incriminatória.
 
O caso Queiroz/Bolsonaro é escabroso, um escândalo de vastas proporções, que ilustra não só uma modalidade prevalecente de atuação política como o caráter do atual governo brasileiro. 
 
O senador está em apuros e quanto mais fala, pior fica, pois nada do que diz é plausível. A cada dia, vão ficando mais claros os podres de sua trajetória e os riscos que está a transferir para o Palácio do Planalto. É como uma bomba prestes a explodir.
O desfecho do caso caminha no ritmo das circunstâncias. Está condicionado pela correlação de forças, o que é inevitável, e também porque o Congresso Nacional e o Poder Judiciário estão empenhados em não produzir mais atrito com o Executivo.
 
Certa ou errada, é essa posição “conciliadora” e cautelosa dos poderes que protege hoje o senador.

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