Um partido para chamar de seu

Um partido para chamar de seu

A crise do PSL não tem a ver só com poder político, mas passa especialmente pelo controle das finanças.

Marco Aurélio Nogueira

09 de outubro de 2019 | 11h37

Todo mundo sabe que partidos políticos são entidades partidas, envolvidas em lutas internas e disputas que muitas vezes atingem as raias do absurdo.

Mas é inusual que partidos se autodestruam quando atingem o auge do sucesso.

Tensões costumam crescer quando se trata de apurar responsabilidades por derrotas ou erros graves, que ameaçam o futuro da agremiação. Nas vitórias, e naqueles períodos em que um partido  vive nos braços do povo, a sujeira tende a ser varrida para baixo do tapete.

No caso do PSL, a disputa interna é marcada antes de tudo pela falta de substância programática e doutrinária do partido e de seus personagens, em particular os que são ou desejam ser seus donos. Aqueles que se batem ali dentro nem sequer conseguem articular um discurso que justifique suas posições, o que leva o debate ao rés do chão, com troca de ofensas e baixarias em público.

A questão não é só de poder político, mas passa especialmente pelo controle das finanças, algo vital quando se considera o calendário eleitoral do próximo ano. A família Bolsonaro quer abocanhar a maior parte dos fundos a que o partido terá direito para, desse modo, acumular um patrimônio. Eduardo Bolsonaro em São Paulo, Flávio e Carlos no Rio, o pai de todos querendo reinar no País inteiro, articulam-se para dobrar a máquina partidária a seus interesses. Têm procurado fazer isso com o PSL, que imaginam transformar num grande partido de massas que dê sustentação duradoura aos negócios da família.

Partidos são seres vivos, que crescem e precisam de alimento, cuidado, atenção. Não precisam, porém, de veemência e autoridade unilateral, ainda que isso frequente a história de quase todos os partidos. Rasteiras, golpes de mão, chantagens, compra de votos, difamações e manobras sórdidas são muito mais comuns do que se imagina.

O presidente parece estar fazendo as malas para desembarcar do PSL. Precisa criar fatos que justifiquem a decisão e não o deixem mal na fita. Ele é useiro e vezeiro no troca-troca partidário, já passou por uma dezena de siglas ao longo da carreira. Talvez não lustre a imagem se mudar mais uma vez. Mas seu entorno é tóxico e apetitoso, e ele próprio deve gostar de se imaginar um líder popular, com um partido à disposição para organizar os salamaleques.

Acontece que há outros interesses no PSL e nenhum vetor com capacidade de organizar a confusão. Parte-se do suposto de que o presidente é um bom ativo eleitoral, mas ninguém quer posar de subalterno, ainda mais tendo em vista a possibilidade do governo federal não entregar tudo o que prometeu na campanha. O presidente, por sua vez, tem medo de não se sair bem nas eleições municipais e para compensar isso quer ter o partido na mão. No mínimo para ter a quem atribuir culpas e responsabilidades.

O impressionante é que ninguém, a começar da família Bolsonaro, se preocupa em avaliar o desgaste que a disputa partidária poderá causar no governo do pai. Pressionado pela economia que não deslancha, pelos problemas de Flávio com a Justiça, pelos “laranjas” do ministro do Turismo e pelas defecções que começam a ocorrer, o governo terá de mastigar uma crise adicional e correr o risco de piorar ainda mais seu desempenho.

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