Um manifesto para sair da escuridão

A ideia é criar um espaço político mais generoso e que projete um futuro para o País

Marco Aurélio Nogueira

06 Junho 2018 | 17h17

O Manifesto Por um Polo Democrático e Reformista veio à luz ontem, dia 5 de junho, e trouxe consigo, como era de esperar, manifestações as mais diversas, numa clara indicação das controvérsias e dificuldades que o cercam. O manifesto pode ser lido aqui.

A leitura predominante entre os analistas é de que se trata de um gesto para impulsionar a candidatura de Alckmin, interpretação facilitada pelo fato de seus principais articuladores serem tucanos e parlamentares. Não se deu a devida importância ao fato de que o PSDB é hoje uma nau sem rumo, com muitas divergências internas. O próprio FHC tem feito seguidas manifestações de que é preciso abrir o leque e pensar grande, sugerindo que a “fulanização” do centro democrático terá de ocorrer logo, mas sem intransigência ou vaidades exacerbadas. Além disso, entre os signatários há quem carregue no coração outros sonhos, eventualmente outros candidatos e propostas.

Hoje, uma manifestação que privilegiasse unilateral uma das candidaturas tidas como democráticas surtiria pouco efeito. Morreria na praia. O que se fez ontem, em Brasília, pode até ter incluído alguns desejos de beneficiar Alckmin, mas o foco foi outro, bem mais amplo. Só uma leitura torta poderia sustentar que o manifesto faz a defesa do “governismo” ou de um dado candidato.

Já se disse que a ideia de “centro democrático” é uma construção, que almeja aproximar as duas vertentes que desaguam no centro político, uma mais à esquerda e outra “centrista” pura. O Manifesto deseja proclamar que essa aproximação não só é possível, como é acima de tudo necessária. Qual vertente deverá assumir a cabeça de uma eventual “frente” desse tipo? Não há como fixar de antemão esse ou aquele candidato, pois cada um deles, tomado isoladamente, não tem se mostrado forte o suficiente para liderar a “construção” ou vencer as eleições. Talvez tenha de se cogitar de uma injeção de sangue novo. Um centro “puro” pode não ser tão competitivo quanto um centro que se “incline à esquerda”, ou vice-versa, mas o enigma só poderá ser estabelecido mais adiante. O certo é que sem cooperação tudo será mais difícil.

Outra parte da leitura predominante explora a ideia de que o Manifesto pretende evitar o risco de que as eleições enveredem por um caminho em que se confrontarão dois tipos de radicalismo autoritário: um protofascista e um bolivariano. Aí é necessário fazer uma ponderação.

Não é possível assemelhar um autoritarismo ao outro. O protofascista é uma ameaça real, que jogaria o país nas trevas e é abertamente regressista. A ameaça “bolivariana” é diferente, até por ser imprecisa demais. Do que é que se fala? Não é razoável que alguém queira trazer para o Brasil estilos políticos nascidos na Venezuela de Chávez. O PT não pensa isso, nem muito menos o PDT ou o PCdoB. Sugerir que Ciro Gomes seja “bolivariano” não corresponde aos fatos, e entre os signatários do Manifesto há muitos que sabem disso. Pode-se não gostar do político cearense, mas é errado desqualificá-lo desse modo. Até porque, supondo que um segundo turno ponha em confronto Bolsonaro e um candidato de centro, será preciso conquistar o apoio de Ciro e dos “bolivarianos”. O pretendido “pacto de não agressão”, defendido pelo Manifesto, precisaria abarcar também os candidatos que não estão propriamente no centro. Noblesse oblige.

O Manifesto, na verdade, posiciona-se de outra maneira. Seu foco é a defesa da democracia. Diz o texto: “A demagogia e atitudes hostis à vida democrática devem definitivamente ser afastadas do cenário nacional. À direita, se esboça o surgimento de um inédito movimento com claras inspirações antirrepublicanas e antidemocráticas. À esquerda, uma visão anacrônica alimenta utopias regressivas de um socialismo autoritário e antidemocrático e de um Estado intervencionista e onipresente”.

O “centrismo” do Manifesto não leva a que ele se feche para a questão social. Muito ao contrário. Faz-se uma defesa clara do SUS (Sistema Único de Saúde), da Bolsa Família, de medidas para moradia e saneamento, do desenvolvimento sustentável e do meio ambiente. A proposta fala claramente em combater “sem trégua” a miséria, a pobreza e as desigualdades sociais e regionais. “As estratégias inclusivas devem sempre visar à emancipação do cidadão, a promoção de cidadania plena para todos e a mínima dependência do cidadão em relação à tutela estatal, embora programas de transferência de renda sejam fundamentais para o combate emergencial à miséria”.

O Manifesto – eu o endossei – é uma tentativa de soltar um grito de alerta e criar um espaço mais claro para que se examine a situação política brasileira. A opinião dos que o assinaram é de que o país chegou próximo demais do abismo, não só porque um protofascista pode ser o próximo presidente, mas porque o tamanho dos problemas nacionais ficou grande demais. Não é a economia: é ela e mais a educação, a saúde, a habitação, a previdência social, as contas públicas – áreas que requerem políticas carregadas de dor e sacrifício, que requerem tempo para amadurecer e produzir resultados. A sociedade está vivendo em profundo mal-estar, falta serenidade para quase tudo, como se um rastilho de pólvora estivesse aceso pronto para atingir uma bomba. A resposta dos partidos, dos governos, dos políticos, tem sido insuficiente para acalmar e sugerir um caminho.

Sendo assim, é ingenuidade política ou cegueira achar que será possível avançar sem uma boa dose de unidade política nacional. Essa unidade não existe, muito ao contrário. A desagregação das forças políticas é suicida. Independentemente de quem chegar ao segundo turno e vencer as eleições, o futuro será carregado de dificuldades e desafios. Que só poderão ser administrados por uma articulação que aproxime os “menos diferentes”, apazigue a polarização, processe adequadamente os conflitos, patrocine uma relação republicana e produtiva entre o Legislativo, o Executivo e o Judiciário, pondo em circulação uma pedagogia democrática que chegue à população.

Com ou sem o sucesso do Manifesto, o desafio brasileiro é e continuará sendo o de encontrar uma brecha para sair do poço em que o país se encontra. E essa brecha não surgirá pelo vigor ou pelo voluntarismo deste ou daquele candidato, mas pela constituição de uma frente democrática autêntica e generosa, que vá bem além de uma união circunstancial de interesses.