Um blog para manter vivo o debate público sobre a política

Um blog para manter vivo o debate público sobre a política

Marco Aurélio Nogueira

31 de outubro de 2014 | 13h19

Inicio hoje, com expectativa e satisfação, minha participação na plataforma de blogs do Estadão.

Faço isto modestamente e sem afetação intelectual. Sou professor universitário, estudo teoria política há décadas, já escrevi diversos artigos e livros de caráter acadêmico. Sempre tive um pé no jornalismo e na análise política feita ao sabor dos acontecimentos. Escrevo há anos para o Estadão, primeiro no Jornal da Tarde e desde 2001 na p. 2 de O Estado de S. Paulo. Antes, incursionei pelo jornalismo cultural na Folha de S. Paulo e no semanário Opinião, além de ter atuado em jornais e revistas de caráter mais partidário.

Quem se propõe a escrever para discutir ideias e ajudar a que circulem informações junto a leitores amplos deve largar pela estrada todo e qualquer vício de linguagem que possa bloquear a comunicação. O blog que ora inauguro não será um local para que se extravasem narrativas especializadas. A intenção é manter um espaço a mais de debate público.

A política é uma atividade humana por excelência. Muitas coisas se misturam e se confundem nela: amor e ódio, cálculo e paixão, poder, possibilidade de agir sobre o mundo real, interação com ideias, valores e interesses, instituições, grupos e classes sociais, manejo do Estado e do governo, políticas públicas e formas de intervenção estatal, vida partidária e vida coletiva, pulsões e dinâmicas individuais. A política carrega as marcas do tempo histórico, das culturas nacionais, das sociedades. É sempre disputa, ocupação de espaços e esforço de persuasão. Às vezes se traduz como um embate campal entre adversários, que deixam de lado ideias e propostas e abusam de ataques recíprocos autocentrados, como se cidadãos não existissem e não devessem ser respeitados.

Algo assim aconteceu nas eleições presidenciais brasileiras de 2014, para lamento geral da Nação.

A política não precisa ser vivida como uma batalha sangrenta para conquistar ou conservar o poder. Ela tem mais valor do que imaginamos. Tenho escrito bastante sobre isto; é o caso, por exemplo, do livro Em Defesa da Política (2ª edição. São Paulo. Editora Senac, 2005).

Hoje, muitos veem a política com desconfiança, como um campo que teria sido excessivamente contaminado pelos interesses organizados, pelo poder econômico e pelo apetite desmesurado de quem chega ao poder, já não podendo mais ajudar a que se tomem decisões para o bem comum. Outros preferem apostar no ativismo social, na “sociedade civil” ou em movimentos alternativos, que pelejariam à margem do sistema ou contra ele.

É assim no Brasil e no mundo todo. O mais grave é que este atrito universal está se combinando com uma espécie de “horror” à política e aos políticos.

As altas taxas de individualismo, competição, desgoverno, miséria e corrupção que nos atingem tornam mais difícil que se consiga falar de política em sentido positivo, ou seja, que se valorize aquilo que a política pode fazer para que diferenças e conflitos se resolvam sem a recíproca destruição dos antagonistas e com ganhos expressivos em termos de convivência. Como a sociedade está revolta e conturbada, a política acaba por se traduzir em estrago e perversidade, passando a ser ainda mais mal vista.

Políticos ruins existirão sempre. Mas precisamos aprender a separar a parte podre da fruta. Política não é só o que fazem os bons e os maus políticos, é uma atividade inerente a cada um de nós. Políticos profissionais são intermediários, representantes, lideranças. Vivem e agem no interior de um sistema. A boa ou a má qualidade deles depende da qualidade dos que são por eles representados, dos valores que prevalecem e da armação institucional em que operam e podem ser controlados.

O “horror” à política expressa a dificuldade que as comunidades estão tendo não só de se adaptar a um quadro de crise e mudança acelerada, mas sobretudo de governá-lo.

Se os políticos fossem liquidados ou expulsos da Terra, quem faria o que eles fazem: quem organizaria as diferentes demandas dos cidadãos? Sem eles a vida ficaria meio besta e com menos sentido, e ainda por cima perderíamos um de nossos maiores Judas! A morte dos políticos seria o renascimento da autoridade em estado bruto. Seria a entrada em cena da força no lugar do diálogo, da arrogância e da prepotência no lugar da tolerância, do dogmatismo religioso ou técnico no lugar da Razão política. Seria o reforço categórico dos homens providenciais e não dos homens comuns, da autocracia e não da democracia.

Sair em defesa da política não é defender políticos, governos ou instituições: é, ao contrário, defender a hipótese mesma da vida comunitária. Corresponde à necessidade de manter abertas as comportas de oxigênio, para que possamos continuar a respirar. É uma defesa da possibilidade de um poder governamental que, animado por vínculos e valores coletivos, submeta-se ao controle democrático dos cidadãos e funcione para todos. Não precisamos viver atormentados por governos que assumem vida própria e se voltam contra os governados.

Pretendo fazer do blog um canal que explore, com os leitores, este modo de pensar a política, sem se limitar a ele.

Política e sociedade em tempos de turbulência, em tempos de redes e comunicação digital, em tempos de crise e mudança acelerada, de incorporação de novos hábitos e novas formas de vida. Tempos em que tudo está posto em xeque e se transforma: a sociedade, a cultura, os indivíduos e, por isto mesmo, a política e o Estado.

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