Tragédias em série

Tragédias em série

O Brasil carrega nas costas o fardo da improvisação e do desleixo e a a situação piorou quando ingressamos na era planetária da complexidade estrutural e do risco

Marco Aurélio Nogueira

11 de fevereiro de 2019 | 17h19

Se uma sociedade passa por uma sucessão de catástrofes e desastres evitáveis, como se estivesse a despencar precipício abaixo, algumas questões vêm imediatamente à mente, embaladas na tristeza e no horror de ver tantas vidas e tantos recursos desperdiçados.

Uma delas diz respeito à taxa de tolerância dos cidadãos perante a incúria, a negligência e a irresponsabilidade. As tragédias não são uma revolta da natureza bruta: são produtos da ação humana e de seus descaminhos irracionais. Outra, obviamente, remete-se ao despreparo gerencial e à falta de cuidados e critérios dos que tomam decisões.

O amadorismo, o desleixo e o “jeitinho” respondem por muita coisa. Puxadinhos, gambiarras, “gatos” e remendos são a marca de uma cultura do improviso que muitas vezes é cantada em verso e prosa como sinal de talento e criatividade. Podem ter sua graça no folclore, mas são inadmissíveis em atividades e empreendimentos que implicam risco para a vida de centenas de pessoas e as mantêm em estado de periculosidade permanente. Obras públicas, plantas industriais, maquinário, veículos, barragens, minas, grandes empresas não têm o direito de fazer vistas grossas ao que quer que seja. Sua razão de existir exige o mais criterioso cuidado.

Tão grave quanto isso é a impunidade, a facilidade com que se deixa de chegar aos responsáveis e às causas dos acidentes, a desculpa de que ir a fundo pode comprometer investimentos importantes para o país, a falta de escrúpulos em relativizar a questão e “culpar as vítimas”, a inoperância da Justiça, a inapetência governamental, os acordos espúrios entre empresas, governos e políticos – tudo forma uma maçaroca que só faz crescer, como se não pudesse ser decifrada. Vai-se assim varrendo para baixo do tapete uma sujeira criminosa que se se acumula sem que nada se faça e com a sociedade tendo de assistir à liquidação de suas partes.

O Brasil carrega nas costas o fardo da improvisação e do desleixo. Talvez sempre tenha sido assim, mas é inegável que a a situação piorou na medida em fomos ingressando na era planetária da complexidade estrutural e do “risco”, para empregar termos consagrados pelo já falecido sociólogo alemão Ulrich Beck.

Numa sociedade de risco sabe-se que desgraças e tragédias acontecerão porque o arranjo socioeconômico e cultural está a produzir anomalias e distorções que, no limite, não têm como ser controladas. É muito desejo de desenvolvimento, muita experimentação científica e tecnológica, muita gente circulando, um desemprego que só faz crescer, calor e gases por todos os lados. As potências assim liberadas comprometem as bases da vida, da cultura (do modo como as coisas são feitas, explicadas e compreendidas) e da natureza. As águas se revoltam, as temperaturas médias sobem, a vegetação passa a escassear, a mudança climática torna-se ostensiva e ameaçadora, e mesmo assim há quem diga que se preocupar com isso é abraçar uma “agenda de esquerda”. Governos, empresas e pessoas viram as costas para perigos que eles mesmos produzem, numa indiferença que escandaliza.

Lembremo-nos do acidente de Tchernobil (1986), da usina nuclear construída para fins pacíficos e em regime de segurança máxima que, num belo da, foi pelos ares naquela cidade ucraniana, espalhando caos e pavor pela Europa e suspendendo a respiração do planeta. Outros eventos são igualmente dramáticos. Terremotos devastadores, tsunamis, águas e nevascas arrasadoras, a escalada da violência banal, do terrorismo e dos crimes hediondos, a sensação de mal-estar que impregna a vida cotidiana, o retorno de doenças que se acreditava controladas, as crises sucessivas, o desemprego estrutural, a desorientação dos jovens em relação ao futuro e o desequilíbrio ecológico. O circuito é diabólico.

Seria esse cortejo de horrores e dificuldades a expressão de acidentes normais, de falhas sistêmicas passíveis de prevenção ou da “vingança” de uma natureza cansada de ser dilapidada e superexplorada? Ainda que algo possa haver disso, fato é que passamos a viver em meio aos efeitos colaterais de uma civilização – a modernidade capitalista industrial – que regurgitou e saiu dos trilhos, voltando-se contra si própria e escapando dos controles empregados para ordená-la.

A modernidade em que nos encontramos está se ancorando sempre mais numa civilização fundamentada no risco, deixando para trás os cálculos e os controles típicos da sociedade industrial vinda do século XIX. Vivemos em um mundo globalizado, conectado, que socializa ônus, perigos e oportunidades. O destino da nossa era se organiza em função do risco, do qual não há como fugir. Sistemas concebidos para proteger e racionalizar convertem-se em forças destrutivas. Ameaças vêm a reboque do consumo cotidiano, infiltradas na água, em alimentos, nas roupas, nos objetos domésticos. Tudo é processado reflexivamente, quer dizer, mediante discussão, elaboração, troca de informações, que voltam a turbinar o circuito. Trata-se de “uma civilização que ameaça a si mesma”, como escreveu Beck, na qual a incessante produção de riqueza é acompanhada por uma igualmente incessante “produção social de riscos”.

Precisamos urgentemente de interpretações ousadas, libertas de esquemas teóricos rígidos, pesados. O mundo não está acabando e precisamos olhar além das desgraças cotidianas, por mais difícil que seja. Temos de aprender a conviver com os riscos em geral e com os riscos típicos da “sociedade do risco”, que são complexos, multifatoriais e proveem da estrutura da vida. Administrá-los, anteciparmo-nos a eles, compreender que são reais e requerem, no mínimo, medidas cautelares permanentes e ganhos crescentes em termos de responsabilidade. Sem isso, tragédias em série continuarão a nos afetar, a produzir dor e sofrimento de modo ininterrupto.