Tempestade de horrores

Tempestade de horrores

Enquanto o governo exibe sua incompetência criminosa, as pessoas seguem desorientadas

Marco Aurélio Nogueira

11 de dezembro de 2020 | 15h05

Foto Peia S. Dias

Você vai juntando as peças. O presidente diz que temos um “finalzinho de pandemia” bem no dia em que os números indicam a reativação do vírus. Depois, fica sabendo que o governo planeja gastar R$ 250 milhões para oferecer um “kit Covid” com hidroxicloroquina e azitromicina no programa Farmácia Popular. Um dinheirão jogado fora, que poderia ajudar a cobrir o custo da vacinação. Sabe-se, também, que faltam insumos (seringas, agulhas, algodão, luvas) e que ninguém tomou providências para resolver isso. Ao mesmo tempo, dias atrás atrás o governo isentou revólveres e pistolas do recolhimento de impostos.

Disse-o bem Fernando Gabeira: “tornamo-nos reféns de um governo obscurantista”, composto por gente que menospreza a ciência e a vida, que pensa que a solução está atrás e não à frente, que debocha de vírus, doenças e precauções.

O País está à deriva, largado ao léu. A pergunta que intriga é porque ninguém faz nada para que se supere isso. Como chegamos ao ponto de ter, na Presidência da República, alguém tão despreparado, tão indiferente à sorte da população, à vida dos brasileiros, que deveria ser o valor maior de uma sociedade civilizada? Como é o chefe que manda, sua equipe de trabalho tem a sua cara, compõe um ministério de medíocres, que mal sabe o rumo a seguir.

Não faltam instrumentos institucionais para afastá-lo do cargo, a começar do impeachment. A irresponsabilidade é um crime, tanto maior quanto mais põe em risco a vida das pessoas, quanto mais ofende e desaparelha o Estado. O que temem os políticos? Por que não abandonam suas questões particulares e olham para o povo, para a salus rei publicae, para a República, que prevê que a proteção e a segurança dos cidadãos estão acima de tudo?

Falta política, grande política. Faltam políticos sérios, corajosos, determinados. Não há diretrizes nem orientações políticas. Estamos sentindo na carne o efeito cruzado e combinado de uma pandemia agressiva com governantes desqualificados e uma oposição tíbia, frouxa. Tempestade perfeita, de horrores.

Ficarão todos a olhar as mortes voltando a crescer? Esperando que as vacinas cheguem e sejam distribuídas sabe-se lá quando e como, sem dar um sinal sequer para que a população saiba o que fazer? Médicos, pesquisadores, especialistas, a mídia profissional estão fazendo seu papel. Mas as recomendações são díspares. Há um eixo comum: resguardem-se, fiquem em casa, usem máscaras, não aglomerem. Mas e nas festas de fim de ano? Vale viajar para passar o Natal em grupo? Vale fazer uma festinha para comemorar o Ano Novo? Pode ser, desde que não sejam mais de 6 ou 7 pessoas, quem sabe 10 ou 12, desde que não se fique junto mais do que 2 ou 3 horas, quem sabe 4 ou 5, vá lá, um final de semana inteiro? Na praia não há vírus, não é mesmo? E nas cidades do interior?

Seria bom se as associações médicas e científicas fizessem um manual de bom comportamento e de práticas saudáveis de socialização. Um guia para os tempos pandêmicos.

O desejo de enturmar depois de quase um ano sem sair de casa excita os brasileiros, que não estão levando a sério o que pode acontecer se a Covid voltar a crescer exponencialmente. Há pessoas que não acreditam, outras que se julgam acima das demais e se veem já imunizadas, ou protegidas por Deus. Há os que não estão nem aí e não abrem mão de ver os familiares e os amigos.

Ao menos no Brasil, as pessoas não foram feitas para ficar sozinhas. Há nelas uma compulsão pelo abraço. Coisa que, no presente momento, tem algo de mórbido, como se houvesse uma disposição inconsciente de se atirar nos braços da morte.

 

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