Temer fala em unificação, mas ninguém sabe onde estão os unificadores

Marco Aurélio Nogueira

07 de agosto de 2015 | 18h23

Ressoa e repercute amplamente a declaração de Michel Temer feita na última quarta-feira, segundo a qual o País espera por um pacto “acima dos partidos, do governo, de toda e qualquer instituição”. Seu posicionamento foi impactante: “É preciso alguém com capacidade de reunificar o País” para que não se configure uma “crise desagradável”.

Compreensível que a frase tenha caído como um torpedo na vida política. Foi a primeira vez que o vice-presidente admitiu que falta liderança política na Presidência da República, instituição de que se espera precisamente capacidade de reunificação. Consta que Dilma ficou brava quando soube das declarações, o que também se compreende.

Temer disse muita coisa, mas não disse nada sobre o fundamental: quem seria este unificador, este político qualificado para pacificar e dar rumo ao País?

Fala-se em “pacto nacional” ou em acordos entre as forças socialdemocráticas brasileiras — PT, PSDB, PPS, pedaços do PMDB, Rede, PSB — há muito tempo. Desde ao menos o momento em que PT e PSDB resolveram se converter em inimigos recíprocos, jogando no lixo o que poderia ter sido um longo período de progresso social para todos. Converteram em tese aquilo que era picuinha e investiram pesado na competição eleitoral, numa disputa insana para saber quem faria mais e melhor pelo País. Gastaram imensa energia, perderam identidade e abriram espaço para o reaparecimento de tendências conservadoras. Converteram-se ambos em gerentes do sistema político e do capitalismo nacional, ou seja, em agentes da ordem. Partidos sem alma. O PSDB se agarrou às conquistas dos anos FHC e à estabilidade monetária; e o PT transformou em mantra aquilo que promoveu de ascensão social e distribuição de renda. Nenhum deles pôde se vangloriar de ter feito mudanças estruturais no País.

Para complicar, o PT levou ao extremo a obsessão de se fixar na cúpula do sistema: vendeu a alma ao diabo e chega aos dias de hoje sem conseguir explicar, nem à sociedade nem a si próprio, como foi possível um partido de esquerda ter ido tão longe na manipulação fraudulenta dos recursos políticos.

Quando Temer fala, portanto, em “reunificação”, a pergunta que fica é: por que agora?

O tom dramático e emocionado do vice-presidente — dele mesmo, que poucas semanas atrás, nos EUA, falara que havia no País uma “crisezinha” sem maior importância — pode ter querido sugerir que ele próprio se prontificava a ser o unificador. Fala-se que sua declaração em meio a uma reunião com representantes engalanados do PMDB e do PSDB, ou seja, logo após aquilo que poderia ser um plano para encontrar uma alternativa política para a rápida deterioração do governo Dilma.

O problema, neste caso, é que não dá para contar nem com o PMDB, nem com o PSDB. Ambos estão cortados de cima a baixo por divisões e disputas internas, além de terem cálculos de curto e médio prazo que atrapalham demais. Falta, também, clareza, não só em termos de plano de voo como também em termos programáticos mais consistentes.

Neste ponto, PMDB, PT e PSDB caminham abraçados. Veem a banda passar pelas ruas, ouvem as panelas que batem, as praças que reclamam, sem poderem delas se aproximar e muito menos dirigi-las.

É em boa parte por causa disso que Dilma vai ficando. Ela não governa mais, não inspira confiança na maioria da população, mas consegue se equilibrar graças à inoperância dos partidos e dos políticos. Só mesmo a marcha da Operação Lava-Jato pode abalar a situação.

Temer falou em unificação e pareceu ter tentado dizer aos partidos, PT incluído, que a hora é de diálogo, acordos e cooperação. Tentou se comportar como estadista e como bombeiro.

No dia seguinte, porém, o PT foi à TV para dizer que aposta na polarização. Recheou de números e grandiloquência sua propaganda e em dez minutos, no melhor estilo João Santana, tentou alertar os telespectadores contra os golpistas de plantão que querem mais crise política, naqueles que desejam desestabilizar o governo e que “só pensam em si mesmos”. Em nenhum momento abriu o leque para admitir erros ou para incluir governistas e petistas no rol daqueles que “só pensam em si mesmos”, que enriqueceram a partir das posições políticas que ocuparam, e assim por diante. Toda narrativa foi superlativa: nunca o País esteve melhor, o que o atrapalha é o quem vem de fora (a crise do capitalismo mundial) e o inconformismo dos derrotados nas urnas de 2014. Alguns escorregões podem ter ocorrido, mas nada que tire o sono dos brasileiros. Logo logo a marola passará e o povo voltará a sorrir. Há alguma crise na economia, mas a crise política é artificial, está sendo criada pelo egoísmo dos adversários.

Nenhuma humildade, nenhuma inteligência política estratégica, só provocação aos oposicionistas, atitude defensiva e estímulo às ruas. As panelas bateram ruidosamente, mas a propaganda preferiu brincar com o fato, dizendo que o PT gosta de panelas porque é para elas que vão os alimentos que o governo distribui.

O vice-presidente deve ter assistido à propaganda e se perguntado se continua a ser o homem certo na hora certa.

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