Tapetes vermelhos e saia justa

Lula deitou e rolou nos tapetes vermelhos que lhe foram estendidos na Europa, mas escorregou quando posto diante da questão democracia vs. autoritarismo

Marco Aurélio Nogueira

26 de novembro de 2021 | 11h38

Nada mais sugestivo da indigência política atual do que a polêmica em torno das declarações de Lula na recente entrevista a El País.

Lula desenhou sua caravana europeia como expediente para se reapresentar ao mundo como o estadista de que se necessita, vivinho da silva depois das acusações de corrupção e da prisão. Deitou e rolou nos tapetes vermelhos que lhe foram estendidos, reiterando suas críticas a Bolsonaro e seus compromissos com o fim da fome, do desemprego, da desigualdade. As audiências apreciaram.

Mas Lula escorregou feio quando posto diante da questão democracia vs. autoritarismo. Afirmou-se um democrata, o que de fato é, mas falou sempre na primeira pessoa, em tom peremptório: eu farei, não permitirei, hei de, não admitirei, e assim por diante. O pior mesmo veio quando perguntado sobre os governos de Nicarágua, Cuba e Venezuela. “Por que Merkel pode governar 16 anos e Ortega, não?”, tascou, para depois acrescentar: greves e protestos existem em todo lugar, não só em Cuba, e em todos os lugares a polícia bate, prende e arrebenta. “O problema em Cuba não é o governo, mas o boicote norte-americano”. Um verdadeiro nonsense para tentar escapar da saia justa.

Aqui no Brasil, a entrevista foi aplaudida e vaiada, como acontece com tudo o que Lula faz e fala. Seus defensores, invariavelmente passionais, sacaram o que imaginavam ser a carta vitoriosa: Lula nada mais fez do que defender a autodeterminação dos povos. Em nome desse princípio, não se poderia criticar os governos de nenhum país, posto representarem a vontade da população. O princípio impediria a intromissão nos negócios realizados em outras nações, aí incluídas as escolhas eleitorais e as opções governamentais.

Não é bem assim.

O argumento é tosco e manipula sem critério uma cláusula complicada do direito internacional. Antes de tudo porque nem sempre o povo escolhe livremente seus governantes. Depois porque a crítica faz parte da política: quem não é capaz de mudar e seguir os humores do tempo está politicamente morto, ainda que respire. O argumento, além do mais, está sobredeterminado por escolhas ideológicas, afinidades eletivas e alinhamentos estratégicos. Vindo pela esquerda, seria justo criticar Hitler, Pinochet e Bolsonaro, mas não Maduro e Ortega. Ora, ora…

O princípio da autodeterminação dirige-se aos povos, não aos governos. Um governo não está qualificado para representar a autodeterminação de sua população. Se um povo escolhe um tirano para governá-lo, é justo que os adversários da tirania façam a devida condenação. Eleições manipuladas, em que candidatos sejam impedidos de competir livremente, não podem ser jamais aceitas.

Ferir o princípio de autodeterminação seria, por exemplo, defender a invasão de um país por outro, ou atuar para impedir um povo de viver livremente. Governantes que oprimem e restringem a liberdade dos governados estão agindo contra a autodeterminação. Há nuances doutrinários na discussão, evidentemente, mas a ideia de autodeterminação não implica se aceitar, digamos assim, que um governo massacre sua população em nome seja lá de que razão for.

A ambiguidade de Lula desdobra-se numa pergunta incômoda: se ele se propõe a governar democraticamente, como então pode se associar a governos não democráticos? Em nome de quê?

Pode-se alegar que Lula quis adular a direção do PT e seus militantes mais radicalizadas em termos ideológicos. O problema é que, ao fazer isso, perde apoio de outros setores do próprio partido e principalmente da sociedade, que não aceitam a defesa de governos que retiram de seus povos precisamente o direito de se autodeterminar, pois cooptam-no, silenciam-no e o impedem de agir com autonomia, independência e liberdade.

O esforço para poupar de críticas governos com os quais foram estabelecidos nexos ideológicos (Cuba, Nicarágua, Venezuela) carrega consigo uma contradição. Se Lula pretende usar seu prestígio internacional como moeda eleitoral no Brasil, nada tem a ganhar adulando autoritários de esquerda. Ao fazer isso, permite que a extrema-direita tenha espaço para adular autoritários de direita e perde força entre os que têm dúvidas sobre sua postura democrática, atiçando o antipetismo que tanto mal já fez ao Brasil.

Estrategicamente, em termos de política externa, a ambiguidade de Lula deve ter incomodado os políticos mais liberais e de centro-esquerda na Europa, que podem torcer por Lula, mas não aceitam que se fuja da reflexão crítica sobre os governos autoritários onde quer que estejam.

A polêmica ficou presa a uma garra do tempo, mostrando que alinhamentos ao estilo da finada “guerra fria”, de triste memória, ainda insistem em atormentar a consciência dos vivos.

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