Subindo o tom: e agora?

Um presidente desqualificado como estadista, que não governa e se dedica a agitar as águas em benefício próprio, indica que o País está entregue a si próprio, obrigado a extrair o máximo de suas forças para seguir em frente.

Marco Aurélio Nogueira

08 de setembro de 2021 | 10h47

Bolsonaro deitou e rolou no 7 de setembro. Milhares de manifestantes foram às ruas, especialmente em Brasília e São Paulo, para apoiá-lo e reverberar suas palavras.

E agora?

A pergunta está na boca de todos. Antes de tudo, porque o presidente abriu em público sua caixa de ferramentas, em alto e bom som, num gesto sem registro na história da República brasileira. Ameaçou as instituições, atacou ministros do STF, pôs em xeque o sistema eleitoral, repetindo, pela enésima vez, que a fraude nele predomina, conclamou o povo a segui-lo numa “resistência em favor da liberdade” que tem cor e cheiro de cruzada golpista antidemocrática. Xingou, espumou ódio por todos os poros, pregou violência explícita e desobediência a decisões da Justiça brasileira.

Foi um repto, uma provocação a mais, sem subterfúgios, com agressividade incontida. A massa mobilizada gostou. Forneceu ao presidente a claque que tanto busca. Foram em bom número à Av. Paulista, laçados pela propaganda insidiosa, mas não o suficiente para dar viabilidade operacional aos planos presidenciais. Massa passiva e barulhenta, sem programa claro de ação, limitando-se a repetir slogans vazios de sentido.

Bolsonaro mostrou-se indiferente às reações que poderão advir de sua atitude tresloucada. Não teme o isolamento político, parecendo, ao contrário, trabalhar para aprofundá-lo. Acredita que a força que exibe no seu pedaço basta para a conquista do País. Nas próximas semanas, perderá aliados e verá crescer a maré do impeachment. Sabe disso, está pagando para ver e, quem sabe, encontrar uma escapatória que o o afaste do perigo ou lhe permita atravessar o fogo como herói.

Ao se agarrar a um território cada dia mais estreito e despovoado, o presidente calcula que assim obterá o oxigênio de que necessita para  sobreviver. Excede-se em uma pauta que não dialoga com a sociedade, angustiada com o desemprego, a pandemia, a inflação, a crise hídrica, a falta de um governo ativo. Como vem fazendo desde o início, despreza tudo o que faz o povo sofrer, tudo o que importa para o País.

Seus apoiadores – inúmeros bolsonaristas de carteirinha, mas também gente com raiva da política, evangélicos conduzidos por pastores oportunistas, milicianos, policiais à paisana, pessoas ressentidas e perdidas no espaço, sem perspectiva política, intelectual ou moral – saíram dos guetos em que se refugiam para aplaudir o “mito” que julgam estar encarnado em Bolsonaro. Ao menos até agora, aceitam por inteiro esse script alucinado, paranoico, que vê comunistas por todos os lados e despreza a democracia, com suas regras e seus valores. A linguagem tosca, grosseira, desprovida de argumentação racional, dá impulso a um script que abusa da ideia de liberdade, estendendo-a ao direito de mentir, difamar e enganar a população. Para esses grupos, a autoridade (no caso, do presidente) é a força que move a história. Acreditam em Bolsonaro porque ele prometeu abrir as portas do céu. Não conseguem ver que o “mito” tem pés de barro: não governa porque não sabe nem tem aptidão para isso. É um autocrata sem habilidades de gestão ou de formação de consensos.

Esse discurso vem sendo martelado há meses pelo presidente. A intenção é passar-se por vítima de um “sistema” que o perseguiria para não ser por ele destruído. Promessa de campanha, o combate ao “sistema” é a farsa maior de Bolsonaro. Ele, seus filhos e os milicianos  que os seguem querem, na verdade, se aproveitar do sistema. A família do presidente, em particular, tem-se valido largamente de trambiques para barbarizar a vida institucional, acumular poder e enriquecer. A farsa pretende precisamente ocultar esse fato. Sua meta é minar a democracia a partir de dentro: corroê-la. Para tentar assim proteger a si e aos seus, criar o caos na terra.

A defesa do território conquistado é uma estratégia de sobrevivência. Ergue-se uma trincheira de proteção a partir da qual são lançados mísseis contra o Estado democrático. Nela traça-se um plano para administrar o futuro: se os inimigos são poderosos e a fraude é a regra, por que disputar eleições em 2022? Por que não tentar um ataque frontal, ao estilo de Trump, contra os poderes, a Constituição e o Estado democrático? O cercadinho que amontoa gente crédula e alienada afirma que haveria disposição para tanto. Não é razoável.

Acontece que manobras de ataque não podem ser bem-sucedidas somente com bravatas, insultos, cercadinhos e assaltos localizados. Precisam de muito mais musculatura, adesões seguras e plurais, no mínimo uma organização bem aparelhada, que discipline e dê poder de fogo aos regimentos, que construa lealdades duradouras e defina uma causa consistente. O bolsonarismo não tem nada disso. Donde a tentativa permanente de atrair as Forças Armadas e as Polícias Militares. Para piorar, não conta com apoios na opinião pública e na população, que o vem abandonando de modo contínuo.

Restam-lhe os fanáticos, a extrema-direita e os oportunistas de plantão. Ele precisa radicalizar o gestual, a linguagem, as bandeiras de luta, porque sem isso perderá o eixo.

Pior para o País. Vive-se um pesadelo quando se tem um presidente desqualificado como estadista, que não governa e se dedica a agitar as águas em benefício próprio. Um governo disfuncional indica que o País está entregue a si próprio, obrigado a extrair o máximo de suas forças para seguir em frente.

É um quadro trágico, que exige reação imediata dos democratas, da sociedade civil, das instituições, a começar do Congresso Nacional. As ameaças de Bolsonaro não são vãs, não podem ser toleradas nem muito menos “normalizadas”. Aceitá-las é admitir que a democracia perdeu relevância e integridade cívica. Ainda é tempo de desmascará-las.

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