Só há um jeito de salvar a economia

A flexibilização empurrará a economia para baixo, com uma segunda onda do vírus. Será um cenário de horror. Mortos empilhados nas portas das lojas, com as últimas aquisições entre os dedos.

Marco Aurélio Nogueira

12 de junho de 2020 | 17h47

Nada tenho contra lojas e shoppings. Em muitos desses últimos, em particular, encontro condições de acessibilidades que para mim são essenciais. O problema não é esse. O problema é: o que essa gente tem de tão importante para fazer num shopping em plena pandemia? Passear, ver vitrines, comprar supérfluos, levar crianças para brincar? E numa loja de rua, naquela muvuca de bancas, barracas e ambulantes? Não há nada, absolutamente nada, que justifique uma saída da quarentena para ir às compras. Alguns alegam que gostam de “dar uma olhadinha”, outros que querem aproveitar as promoções e uns terceiros que o valor dos fretes é alto demais e por isso precisam comprar presencialmente.
 
Já imaginou entrar numa loja de roupas e provar aquela camiseta que você tanto desejava? Ou comprar o último lançamento da sua marca preferida?
 
O certo é que a tal da flexibilização não salvará a economia. Só irá empurrá-la ainda mais para baixo, mediante a segunda onda do vírus, dada como certo por todos. Será um cenário de horror. Mortos empilhados nas portas das lojas, com as últimas aquisições entre os dedos. Ou segurando as senhas distribuídas ordenadamente.
 
Se quisermos salvar a humanidade e nos salvarmos a todos, o único jeito é dissolvendo o sistema de produção tal qual existe. Reconectar a economia à vida, tornar o sistema amigável, não predatório, não opressivo. É nos livrando do consumismo doentio que nos corrói por dentro e por fora. Ou achamos que os patógenos não se alimentam disso? Enquanto mantivermos as turbinas do mercado a mil por hora, enquanto nos deixarmos levar por nossas pulsões de consumo, não haverá salvação.
 
Empresários e lojistas de todo mundo, mudem enquanto é tempo. Dá para fazer isso, se vocês abrirem a mente e não ficarem atrás de governantes dispostos a ouvir suas queixas. Há outras formas de produzir, outros produtos para serem postos em circulação. Consumidores, consumam de outro modo, controlem-se. Menos é mais. Aproveitem o que a realidade está mostrando. Salvem-se a si próprios.
 
Caso contrário, a pandemia atual será tão somente um refresco.

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