Sete pontos para começarmos a dizer adeus a algumas ilusões

Marco Aurélio Nogueira

06 de julho de 2015 | 09h58

Análises sectárias, posicionamentos inflamados de crítica e denúncia, preocupação generalizada de achar o inimigo para culpá-lo por crimes e desgraças, fuga permanente das próprias responsabilidades — a vida política está se deixando saturar. Há pouca paciência e pouco diálogo, pouco uso público da razão, tudo é motivo para polarizações improdutivas.

Os atores principais surfam na superfície, atentos aos flashes, não chegam ao fundo dos problemas. Não reconhecem aquilo que pode ser decisivo para que se compreenda melhor o nervo da crise e se projetem opções e saídas para o País.

Se queremos dar um passo à frente, precisamos fixar algumas linhas mais consistentes de reconhecimento e argumentação. Farei um pequeno ensaio aqui.

1. A CRISE EXISTE E É GRAVE. Tem um componente econômico forte. Hoje, a economia brasileira ensaia um ajuste que se fará sobre uma base recessiva que se reproduz há anos. Ajustar uma economia que vive em recessão jamais será um ato sem dor. Ao contrário: espalha seus vírus e bactérias de cima a baixo, contaminando o paciente para tentar, quem sabe, mais à frente, salvá-lo. Cria um quadro de medo e incerteza, embaça o futuro, seja para os agentes econômicos diretos, seja para o conjunto da população. É essa a desgraça maior de toda “política de austeridade”, nome de batismo do ajuste fiscal.

Uma situação econômica recessiva e em fase de ajuste não é, porém, necessariamente o pior dos mundos. Tudo depende de como se processará isso e de como se assimilará o custo do processo. O País não acabará. Tem até reservas para reduzir o impacto do ajuste, gorduras depositadas em seu organismo: focos industriais poderosos, amplo mercado interno, agronegócio bombando, sistema bancário sólido. O problema maior é saber como as peças serão movimentadas, quem as movimentará e quando isso será feito. Todos perderão, mas uns poderão perder mais do que outros. Os operadores jogam papel chave aqui.

2. A CRISE É POLÍTICA. Se o problema maior é operacional, então o componente decisivo da crise é político: tem a ver com capacidade de tomar decisões, agregar consensos, promover articulações, comunicar e convencer. Isso põe a bomba no colo do governo federal, principal vetor da política e o que está a falhar mais. Quando maior for seu déficit de desempenho, quanto mais fraco ele estiver, quanto menos a Presidência da República (lembremo-nos, o sistema é presidencialista) funcionar e for capaz de angariar apoios e receber adesões da sociedade, pior para todos: menor será a chance de uma bem-sucedida gestão da crise. Por isso tanta atenção no governo Dilma, que opera mal.

Mas é cômodo demais, parcial e equivocado dizer que somente o governo conta nesta questão. Governos são sempre parte de um todo, de um sistema que governa. Devem ser responsabilizados, com certeza, pois existem para comandar o sistema e não podem falhar em excesso, sob pena de bloquear a dinâmica sistêmica. Sim, governos criam e alimentam crises, justamente porque são os gestores principais. Não estão, porém, sozinhos no palco. Se não olharmos o todo, fracassaremos no diagnóstico e na terapia.

3. O SISTEMA PETRIFICOU. O sistema que nos governa não está dando conta do recado. Não é somente o PT que enfartou, que anda em círculos, produzindo problemas atrás de problemas. São todos. Não há luzes no vale de sombras em que nos encontramos. Nada muda para melhor, como se tudo estivesse petrificado. Donde a sensação de angústia, desesperança e irritação que toma conta do mundo político, da opinião pública, das redes e da população. Não se acredita em mais nada. Acredita-se em tudo, do boato da esquina às previsões catastrofistas, da palavra fácil do demagogo às postagens de facebook. Os atores caminham como zumbis, sem rumo claro, mudando de posição repentinamente, pronunciando frases desconexas, oscilando entre atitudes ensaiadas de altivez e gestos passionais de coitadismo. Um verdadeiro circo de horrores.

4. AH, MAS OS PARTIDOS ESTÃO AÍ… Há pedaços podres, necrosados, espalhados pelo espectro político. Os maiores partidos se destacam na exibição de suas fraquezas e podridões: quanto mais poder e musculatura acumularam, mais erros cometeram e mais sujaram as mãos. Donde o destaque adquirido pelo PT. Enfastiado de tanto poder, embriagado pelas facilidades derivadas do acúmulo de força e de recursos políticos, escancara suas entranhas e deixa que todos vejam a extensão dos tentáculos com que praticamente submeteu o País a si. O abraço entre o PT e as maiores empreiteiras nacionais é a ponta do iceberg. Nunca se poderia imaginar algo assim em um partido com raízes na esquerda. Podem existir argumentos que justifiquem e atenuem o fato, mas ele, o fato, é candidato seguro a entrar para a História como parte daquele capítulo reservado às maiores traições de todos os tempos.

Mas o PT não é o único a fracassar. Está em boa companhia, ainda que os motivos do fracasso sejam distintos. Seu contraponto típico-ideal, o PSDB, não exibe nada que o credencie para o futuro imediato. Sequer consegue administrar o patrimônio que recebeu das urnas de 2014. Tem pouca unidade, muitos caciques e pouca militância, limita-se a esgrimir o jogo pequeno do ataque ao governo petista sem alçar vôos maiores: sem criar espaços de civilização, sem produzir cultura democrática, em suma, sem brigar de fato pela hegemonia, pela direção intelectual e moral do País. Se o PT peca por excesso, o PSDB o faz por escassez, ou omissão.

A exceção é o PMDB. Não é um partido ideológico nem de quadros, não tem caráter claro ou programático, mas é o único a mostrar apetite e força vital. Não é por acaso que controla a vice-presidência, as presidências da Câmara e do Senado e se projeta como o maior beneficiário de um eventual impedimento de Dilma. Está deitando e rolando por sobre o fiasco dos demais.

Não se trata, pois, de constatar a irrupção de uma “onda conservadora” no Poder Legislativo. O que há é um impressionante retrocesso das forças mais progressistas da democracia brasileira, que não dialogam entre si e não buscam pavimentar um caminho de cooperação.

5. PARTIDOS NÃO SÃO ECTOPLASMAS. Não são entidades abstratas, soltas no ar como matéria gasosa. São compostos por pessoas, correntes, ideias, cultura. Os melhores partidos ambicionam cumprir, na sociedade civil, como afirmava Gramsci, “a mesma função que o Estado cumpre na sociedade política”, ou seja, funcionar como “intelectuais coletivos”, usinas de produção de organizadores de consensos e interesses.

Quando os componentes que dão vida a um partido não reagem — ou só o fazem para se defender e justificar opções –, quando não se movimentam para reconhecer erros e reerguer o partido, então é porque a crise os atingiu em cheio: alcançou o sistema nervoso central da organização. É o que acontece com o PT. Ele não se mexe nem sequer quando o nível da água já passou do nariz. Só faz olhar para trás, como se o passado glorioso contivesse a boia de salvação. Age para esconder o que todo mundo está vendo. Culpa a mídia e a Justiça pelas burrices que cometeu. Cava um buraco que poderá terminar por engoli-lo.

Mas a letargia é geral. O que dizer do PSDB, que mal consegue andar para frente, que segue no acostamento da vida política, atirando pedras em alvos moribundos, pouco oferecendo de propositivo ou animador? Aqui, sobra novamente o PMDB, que pode se dar ao luxo de ser um partido sem desejar sê-lo de verdade, funcionando somente como um condomínio de pequenos e médios interesses da classe política.

6. A DEMOCRACIA RESPIRA. Há, porém, que separar o joio do trigo. Há poucas luzes no vale de sombras, mas não faltam vozes e fatos positivos nele. Ajuste fiscal, recessão e desgoverno disputam espaço com avanços no combate à corrupção, com o “empoderamento” de instâncias que podem fazer o contraponto do Poder Executivo (o Ministério Público, o Poder Judiciário, a Polícia Federal) e que dão fôlego à democracia. Há uma juventude sedenta de política, mídias alternativas proliferam, a própria grande mídia se recicla. A vida republicana se mantem e se renova. Estão indo pelos ares algumas práticas nefastas, que reforçavam o condicionamento econômico dos fatos políticos e o financiamento eleitoral, por exemplo. Será difícil que tudo termine em pizza ou que não se ganhe nada com isso.

Estamos hoje experimentando as dores do parto de uma democratização que se reitera em meio a obstáculos, dificuldades e destroços.

7. E AS OPOSIÇÕES, ONDE ESTÃO? Se a crise é grave, a busca de soluções não pode ser feita de palavras incendiárias, gestos demagógicos ou promessas apocalípticas. Nem sequer passa necessariamente pela derrubada de quem está na Presidência. Exige, antes de tudo, proposição clara de rumos, disposição para trabalhar em conjunto e capacidade de dialogar com a população. Sem isso, teremos muito barulho e muita bravata, mas poucas soluções.

É o que deveriam fazer as oposições democráticas. A falta delas no cenário complica demais o encaminhamento político da crise.

A questão hoje não pode ser lida pela chave esquerda vs. direita. A primeira não existe de fato e a segunda não pesa. Deveríamos parar de brincar com as palavras ou de empregá-las exclusivamente como critério de estigmatização e simplificação. O conflito político corrente se faz tendo em vista um só eixo de problemas: a regulamentação do mercado, as políticas públicas, a distribuição da renda e da justiça social. Como disse recentemente Luiz Werneck Vianna, nosso caminho “é o da social-democracia, com uma inclinação mais à direita ou mais à esquerda, é por aí que gravita e vai gravitar a política brasileira”.

Se juntarmos esses seis pontos, não necessariamente entenderemos melhor o País que aí está. Será preciso bem mais esforço analítico e determinação política. Mas ao menos, quero crer, poderemos começar a nos desfazer de certos enganos, de palavras fáceis e protocolares, de apologias gratuitas e sem sentido, de teses equivocadas. Poderemos passar a olhar o quadro de forma menos passional. Será um passo importante para começarmos a dizer adeus a algumas ilusões.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.