Sem povo e sem as oposições, solução da crise fica distante

Marco Aurélio Nogueira

04 de setembro de 2015 | 14h49

A especulação é uma só: o que estaria por trás das declarações bombásticas e nada cautelosas do vice-presidente Michel Temer, feitas ontem (3/9) a um grupo de empresários e ativistas de oposição?

Temer não poupou palavras ao dizer que acha difícil Dilma “resistir três anos com popularidade tão baixa” e que seu mandato estará ameaçado caso a situação política e econômica não melhore até meados de 2016. Reiterou que alguém precisa surgir para “reunificar o País”, mas não apontou quem poderia desempenhar este papel e nem se ofereceu, por não querer parecer “oportunista”.

No dia seguinte, o ministro da Comunicação, Edinho Silva, veio a público esclarecer que as palavras do vice-presidente foram descontextualizadas, que ele não disse o que acharam que disse e que sua lealdade ao governo é inquestionável. “Mais que uma frase ou outra que geralmente é utilizada e que gera polêmica, para nós o fundamental tem sido a postura do vice-presidente Michel Temer. E, nesse sentido, ele tem  sido extremamente leal, correto, não só com o governo da presidenta Dilma, mas leal e correto com os interesses do país”, afirmou.

Seja como for, a impressão generalizada é que o vice-presidente tentou ciscar para dentro e para fora: mostrar lealdade a Dilma sem deixar de cortejar a oposição e de acenar para ela com um esboço de solução. Quis fixar com clareza que é do governo mas tem voo próprio.

A questão é saber se sua manobra é factível e se angariará apoio e seguidores. A polarização atual torna difícil que se cisque para os dois lados ou se fique em cima do muro. Temer, além disso, não é propriamente um estadista, um político de gestos simbólicos fortes, com uma biografia mítica, imagem consolidada e discurso emblemático. Não é Fernando Henrique Cardoso, por exemplo. Também não é Lula, que quando em boa forma conseguia levantar multidões.

Temer é tão-somente vice-presidente de um governo sem rumo e um dos principais próceres do PMDB, partido que não mais tem vocação unificadora ou pegada “nacional-popular”. Não é pouco, mas não parece suficiente para impulsionar uma operação complexa como a de encontrar um modo de desatar o nó da crise nacional.

Resta a Temer fazer o mais decisivo: convencer a população de que é uma boa opção e trazer para seu lado as oposições, antes de tudo o PSDB.

No primeiro caso, precisará pensar em cidadãos que esteja além dos ativistas que vem enchendo a Av Paulista para protestar contra o governo. Terá de fazer como Joaquim Nabuco na campanha abolicionista: “ter resolução ou vontade de romper as ficções de um parlamentarismo fraudulento, como é o nosso, para procurar o povo nas suas senzalas ou nos seus mocambos e visitar a nação no seu leito de paralítica”. Em suma, falar com os milhões de brasileiros, para o que lhe faltam instrumentos associativos, pontes de acesso e projeto.

No caso das oposições, precisará antes de tudo unificá-las e dar-lhes um discurso claro e coeso, que é o que mais falta. Entre tucanos “radicais” pró-impeachment e tucanos “moderados” há um mar a ser atravessado. Se Temer conseguir caminhar sobre as ondas, poderá despontar como um estadista que ajudou a encontrar  uma solução e “salvar” o País. Se fracassar, terá de se conformar com a posição de vice de um governo a que aderiu por erro de cálculo e que, ao soçobrar, o arrastará consigo para as águas do oceano profundo.

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