Seis meses depois

Seis meses depois

Não sabendo o que oferecer de concreto à sociedade, o governo acreditou que ela se satisfaria com ataques apopléticos à esquerda, ao globalismo e às políticas identitárias

Marco Aurélio Nogueira

28 de junho de 2019 | 13h01

Um semestre depois de iniciado, o governo Bolsonaro exibe uma única realização clara: a queda nos índices de aprovação, que chegaram aos 32%.

Em parte é compreensível. Governos que nascem de rupturas tendem a demorar mais tempo para engrenar. Experimentam seguidas vezes, acham que podem explorar às cegas (ou à força) novos caminhos, precisam fazer costuras complicadas em um material que não dominam.  Tendem a agregar colaboradores jejunos em política e administração, muitos deles ressentidos e com desejo de vingança.

Bolsonaro levou tudo isso ao paroxismo. Sua equipe foi composta de modo aleatório, a partir do que encontrou pelo caminho, sem maior critério técnico ou político, exceção feita a Guedes, Moro e alguns generais. Nasceu e cresceu sem lideranças, o que prejudicou tanto a formatação de propostas e programas de governo, quanto a articulação parlamentar e o diálogo com a sociedade.

Pessoas desprovidas de talento, de vocação e de uma rota segura compuseram um ministério fadado a girar em falso, movido pela ilusória melodia da guerra ideológica. Não sabendo o que oferecer de concreto à sociedade, o governo acreditou que ela se satisfaria com ataques apopléticos à esquerda, ao globalismo e às políticas identitárias, em nome de Deus, da moral e dos bons costumes. Não funcionou.

Em áreas estratégicas como a Educação e a política exterior, houve muita retórica, muitos ataques a moinhos de vento e inimigos imaginários. Faltou tudo o que seria fundamental: propostas claras, visão prospectiva, planejamento, gestão, articulação. Depois de seis meses, continua-se de mãos abanando.

A queda nos índices de aprovação somou-se ao “caso Queiroz”, ao desgaste de Moro, ao prolongamento da crise econômica e a sucessivas derrotas no Congresso, algumas emblemáticas, como no caso da posse de armas. Em consequência, o Congresso animou-se a ocupar os vazios deixados pela desarticulação governamental. Passou a atuar com desenvoltura, chamando para si até mesmo a reforma da Previdência, que já não pode mais vista como uma proposta do Executivo, ainda que possa beneficiá-lo.

O governo foi perdendo força ao longo dos meses. Não se pode dizer que tenha mergulhado na crise, pois ainda tem vela para queimar. Seu desempenho, porém, é medíocre. Entregou-se ao lado negro da força, como se desejasse se concentrar em medidas manchadas de sangue: armas, desprezo pelas minorias, liberação de agrotóxicos, facilitações no código de trânsito, combate a reservas ambientais e a terras indígenas. Um estrago atrás do outro. Nada o beneficiou.

Talvez por ter percebido os riscos que se embutem nessas escolhas, o governo parece ter adotado algumas medidas de contenção. Por um lado, mediante uma ordem unida informal, obrigou suas alas a recuar na luta interna. Nas últimas semanas, já não se vê tantos arranca-rabos patrocinados pelo mago da Virginia ou por Carlos Bolsonaro, que desgastavam o governo ao ritmo alucinante de tuítes e postagens em redes sociais. Os ministros mais ideológicos – Weintraub e Araújo – aprofundaram seu posicionamento no fundo do palco e diminuíram o uso abusivo do estoque de bobagens que possuem. Não estão fora de circulação, ainda falam, e sempre que falam causam espanto e horror. Basta ver as declarações do ministro da Educação associando Lula e Dilma ao peso de uma carga de drogas.

Por outro lado, Bolsonaro começou a falar em reeleição. Pode ser um projeto, pode ser tão somente uma nova maneira de manter acesa a chama de seus seguidores mais fanáticos.

São declarações, porém, que podem acender a chama do lado oposto e ajudar os democratas a agirem com maior competência e determinação.

O jogo está só começando.

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