Rito místico

Rito místico

Para manter vivo um mito, dirigentes do PT aceitam papel de coadjuvantes

Marco Aurélio Nogueira

06 de agosto de 2018 | 11h02

Não é difícil entender a postura do PT e do PCdoB que, na noite de ontem, indicaram Fernando Haddad candidato a vice-presidente na chapa de Lula e um acordo nacional que permitirá a Manuela D’Ávila entrar na chapa mais à frente. Era o que lhes cabia fazer.

Mas surpreende o modo como as decisões foram tomadas.

PT e PCdoB são partidos laicos, com quadros políticos experimentados e militância ativa. Todos ali sabem pensar com a própria cabeça e se vangloriam disso.

Porém, para por em ação o “plano B” e a operação concluída ontem, precisaram aguardar que Lula enviasse da prisão uma carta dando aval à nova estratégia. Sem a palavra final e a ordem do ex-presidente, o impasse persistiria. Criou-se assim um cenário de submissão e subserviência, no qual Lula é apresentado como uma mente superior, no melhor estilo “guia genial do povo”, devidamente revestida da imagem de “maior líder político do Brasil”.

A indicação feita pela carta de Lula não conteve qualquer novidade ou surpresa. O “plano B” era notícia de véspera, conhecida por todos, vinha sendo cozinhada nos bastidores há semanas. Tudo não passou, na verdade, da obediência a um rito, destinado a consagrar a ideia de que Lula toma as decisões cruciais, que somente sua mente iluminada poderia tomar, graças ao descortino e ao desprendimento pessoal que a caracteriza.

Foi uma encenação, típica da política em estado bruto. A verdade dos fatos revela o inverso do que foi apresentado: os dirigentes partidários decidiram o que julgaram ser melhor e comunicaram a Lula as conclusões e avaliações do debate interno.

Mas o fato de terem aceitado o papel público de coadjuvantes, de paus mandados do chefe supremo, não mostra somente a baixa qualidade dos dirigentes e sua “disposição ao sacrifício”. É a prova cabal da disposição que têm de manter vivo um “mito” e uma mística regressista, que só servem para congelar o povo lulista em um estado de passividade sebastianista e exaltação religiosa.

Foi patético ver que, durante a convenção petista, militantes colocaram máscaras com a cara sorridente de Lula. De seu retiro forçado em Curitiba, o ex-presidente alimentou o surto místico: “sei que estou presente em cada um de vocês”.

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