Restrições a Marina são estigmas que não correspondem a sua trajetória

Candidata da Rede sofre acusações que não correspondem à sua trajetória e colidem com seus compromissos generosos

Marco Aurélio Nogueira

30 de agosto de 2018 | 17h09

Marina Silva mora no coração de muita gente. Dona de uma biografia épica, que a trouxe da infância e da adolescência pobres para o primeiro plano da política nacional graças a muita resiliência e a um esforço abnegado, tem marcado posição de destaque na vida brasileira.

Apesar disso, sofre quatro tipos de acusação.

Há os que a veem como um “puxadinho” do PT, uma espécie de petista enrustida ou de emulação de Lula, alguém que a qualquer momento revelará a verdadeira face.

Há os que, no polo oposto, a veem como uma “direitista” mal disfarçada, alguém que trocou o engajamento social da época em que era petista por uma plataforma moderada construída junto com ONGs, empresas de agronegócio e bancos, perdendo-se por completo quando apoiou o impeachment de Dilma e a prisão de Lula.

Há os que a veem como apática demais, alguém que fala o que muitos querem ouvir mas que “desaparece” fora dos períodos eleitorais, deixando de se posicionar perante importantes acontecimentos. Ela tem respondido com firmeza: “Estratégias marqueteiras começaram a dizer que eu estou sumida. Transforma-se algo positivo, que é não estar presente no noticiário policial, em algo negativo. Estou, de fato, sumida da Operação Lava Jato. Estou sumida da briga do poder pelo poder, de ficar buscando alianças incoerentes. Estou presente no debate, e não no embate. Estou sumida na prática de fazer fake news contra os adversários”.

E há, por fim, os que a veem comprometida demais com o credo evangélico, o que a empurraria para as cavernas. Alega-se que Marina não tem uma postura progressista de apoio aos avanços e conquistas da sociedade moderna e que, para disfarçar isso, joga tudo para futuros plebiscitos (sobre aborto e uso de drogas, por exemplo), expediente que servirá para que o atraso da população se manifeste e paralise a revolução dos costumes.

São quatro estigmas que não correspondem à trajetória de Marina, mas que são repetidos à exaustão por seus adversários. Provavelmente serão utilizados durante o horário gratuito. A candidata da Rede Sustentabilidade enfrenta um cerco que não se reduz, e que foi mais claramente organizado em 2014, quando ela só não venceu as eleições porque foi alvejada por uma sórdida desconstrução por parte da campanha de Dilma Rousseff, maior responsável pela imagem negativa que Marina carrega desde então.

Agravam o quadro outras duas restrições. Dizem que Marina pratica um ambientalismo sem pé nem cabeça, refratário ao progresso econômico, que ela é adepta de um radicalismo “verde” que separa a proteção ao meio ambiente do desenvolvimento econômico. Em outra linha, dizem também que sua proposta de organizar uma “nova política” é abstrata demais, distante da realidade e do jogo duro do poder.

Cada uma dessas acusações é imprecisa, tem funcionado exclusivamente para bloquear o trânsito de Marina. Os estigmas são usados como armas de luta política, e os que se valem deles pouco se importam com a veracidade dos fatos. São plantados como minas no terreno acidentado que Marina tem sido obrigada a pisar.

Nenhuma das acusações, porém, toca no fundamental, naquilo que pode de fato comprometer a trajetória presidencial de Marina: a fraqueza de seu partido, a Rede, fato que certamente implicará uma drástica redução das possibilidades que a candidata tem de fazer uma campanha nacional forte e, caso vença, compor uma maioria parlamentar. Especialmente porque na disputa presidencial de 2018 não houve por parte da Rede maior preocupação com a questão das alianças.

A campanha de Marina não tem dinheiro nem tempo no horário gratuito, a Rede não tem musculatura nem lideranças disseminadas para mobilizar os eleitores. Sem alianças amplas e contando somente com dois deputados no Congresso, Marina terá poucos segundos diários no rádio e na televisão. São desafios complicados, e não há como saber se Marina conseguirá vencê-los ou se poderá ganhar as eleições trabalhando como formiguinha e com a colaboração voluntária de um conjunto de seguidores que a tratam com reverência. Sua aposta é que esse grupo e mais a atividade intensa nas redes sociais conseguirão impulsioná-la.

Em 2014, quando concorreu à Presidência na chapa de Eduardo Campos (PSB) e contava com melhor estrutura de campanha, já se falava que Marina não teria perspectiva concreta de apoio parlamentar e seriam reduzidas suas chances de compor uma equipe técnica forte, o que faria com que ela se tornasse presa fácil tanto da base fisiológica do Congresso Nacional, quanto da bancada do PT e do próprio PSDB, partidos da polarização que Marina deseja combater.

Pouca importância tem sido dada ao fato de que apoio parlamentar não é algo que esteja pronto, mas que se conquista mediante um vigoroso trabalho de construção. Se um governo atuar democraticamente e com transparência, mostrar flexibilidade, inteligência política e articulação social, poderá se valer da legitimidade obtida nas urnas para contornar o problema.

Há bons motivos para se preocupar com a fraqueza organizacional da coligação de Marina e com as dificuldades que enfrentará no Congresso, seja em decorrência do estilo político de atuação, seja em função de propostas mais ousadas que eventualmente venha a apresentar. É uma situação que intriga e pode gerar desconfiança, dificultando adesões eleitorais. Mas não deveria ser tratada como uma situação incontornável, uma cláusula definitiva.

A discussão importante, no caso, tem a ver com o modo como se pretende governar.

Será mesmo indispensável que um governo tenha sempre uma maioria leal e disposta a votar fechado, ou seria mais interessante que se formassem várias maiorias, uma para cada questão da agenda? A primeira via sugere maior facilidade e é decisionista, mas cobra preço alto em troca de apoios e favores. A segunda vida é mais complexa e exige esforço redobrado de articulação, mas tende a ser mais coerente. Nosso presidencialismo de coalizão incentiva o primeiro método, e não é que tenhamos tido sempre boa governança e governabilidade. Poder-se-ia pensar nas vantagens que o segundo método traria.

Em termos de análise prospectiva, podemos admitir que Marina, caso chegue ao segundo turno, será levada a buscar alianças de novo tipo e essas poderão funcionar como um vetor de reorganização das forças mais progressistas, agregando a ela e ao seu governo os votos, a força política e o empenho reformador dos partidos democráticos, dos movimentos sociais e das organizações populares.

Tal perspectiva poderia dar à tese da “nova política” uma tradução prática que ela não tem.

Antes de tudo, compensaria o baixo poder relativo dos diferentes partidos e movimentos de esquerda democrática, fornecendo a eles melhores condições de testar suas propostas. Depois, porque cimentaria uma base política para reformas audaciosas e daria a essa base o devido apoio social. Em terceiro lugar, porque ajudaria os democratas e as esquerdas a depurarem suas cristalizações regressistas remanescentes, a se renovarem e a considerarem com maior afinco o desafio da cooperação entre elas. Por fim, porque as impulsionaria para entrar em contato mais ativo e inteligente com a nova sociedade que vem emergindo nos últimos anos.

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