Ressaca, realismo, sabedoria

Ressaca, realismo, sabedoria

Com a eleição dos novos presidente da Câmara e do Senado, será preciso virar a página. O jogo ficou mais complexo e complicado

Marco Aurélio Nogueira

03 de fevereiro de 2021 | 12h35

Foto Peia S. Dias

Muita coisa terá de ser dita para que se compreenda a acachapante vitória das forças de situação na eleição para a presidência da Câmara, com reflexos na do Senado. Lavagem de roupa suja será combinada com esforço analítico e ponderação das variáveis em jogo.

Foi especialmente espetacular a vitória de Arthur Lira na Câmara. Deixará marcas que terão de ser digeridas pelo Estado brasileiro e pelos grupos de oposição. Ela expressa com clareza a nova estética política que prevalece no País: jogar para a plateia (no caso, o plenário da Câmara), abusar da demagogia, explorar ao máximo as mágoas e os ressentimentos, deixar de lado qualquer protocolo ou manual de boas maneiras. A grosseria dá o tom. Como no Executivo.

Há questões que passam pela lógica dos partidos: a tendência inerente a eles de serem sugados pelo poder, com suas prebendas e vantagens. DEM, PSDB, MDB, para falar de alguns “grandes”, se estraçalharam com isso. Mostraram pouca coerência e nenhuma lealdade. Deixaram Simone Tebet e Baleia Rossi na mão. Provavelmente não puseram a mão em cotas orçamentárias, mas deixaram patente a disposição de ficar bem com a “maioria” que controla a Câmara, quem sabe aspirando fazê-la girar em dada direção, e não em outra. Movimentos pessoais e regionais pesaram muito mais do que princípios ou alinhamentos políticos. Deixaram no ar uma interrogação sobre quem é oposição, por quais razões e com quais intenções.

No Senado, o estrago não foi evidente, foi muito menor, o que converteu a instituição num fator de equilíbrio e no novo locus da articulação democrática. Afinal, a candidatura do vitorioso Rodrigo Pacheco funcionou como um estuário de forças de centro e de esquerda, um desenho que não se mostrou possível na Câmara. O MDB “cristianizou” Tebet, mas não rompeu com o “frentismo” que terminou por prevalecer. PT, PSB e PDT puseram a esquerda no jogo. No Senado, Bolsonaro não nadará à vontade. A Casa poderá fazer um contraponto ao que se antevê como recrudescimento direitista na Câmara, com um Arthur Lira se entregando a um plenário fragmentado e desorganizado, à agressividade típica de um “cabra da peste”, cego para a floresta, concentrado em seus interesses.

Lira fez questão de insistir na tese da Câmara independente, mas enfatizou também a ideia de que ela precisa agir em “harmonia”. Com quem? Ele mencionou a direita, a esquerda e o centro, mas seus olhos brilham mesmo para o Palácio do Planalto: as pautas que interessem a Bolsonaro e não o desafiem. Se conseguirá fazer isso (depende muito do Centrão), é algo a ser visto mais à frente. O fato, porém, é que ele tentará, o que já é suficiente para mudar o eixo de atuação da Casa. Irá se valer do estilo que faz sua fama, e que já foi associado à figura do “rato de plenário”, que circula sem parar, ouve conversas e confidências, abraça quem encontra pelo caminho.

Pode-se dizer que também uma houve uma camada de cálculo mais estratégico: colocou-se na mesa uma opção por abafar o fogo e desgastar ou derrotar eventuais lideranças que despontavam para 2022, caso de Rodrigo Maia, que mostrou habilidade nos 4 anos em que presidiu a Câmara, mas de certo modo morreu na praia. Quando mais se precisava de um coordenador, perdeu força. Foi queimado por seu próprio partido, que expôs as vísceras do que se tinha como alto poder de articulação. Maia tentou formar uma “frente ampla” que antecipasse 2022, mas não conseguiu. Sai chamuscado, e terá de correr atrás do prejuízo, que foi enorme.

Sobrou também para os defensores do impeachment já. O ambiente congressual esfriará o tema. A batalha agora será no tempo regulamentar, onde a sabedoria terá de prevalecer, mais que a agitação.

Isso tudo significa que será preciso virar a página. Ficou evidente que Bolsonaro ganhou fôlego e não será politicamente diminuído com a insistência em tratá-lo como a besta-fera genocida que só tem olhos para os seus. O jogo ficou mais complexo e complicado: exigirá linguagem programática e capacidade de bater onde a dor seja mais forte, aqueles pontos em que a fragilidade fique escancarada. As oposições terão de se esforçar mais e aperfeiçoar seu modus operandi, em termos práticos e discursivos. Antes de tudo, precisarão definir se desejam caminhar juntas e articuladas. A ressaca talvez as ajude a apurar o foco e ganhar musculatura para uma disputa de mais longo prazo.

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