Regina Duarte na Cultura

A carga contra a atriz será pesada, mas ela poderá dar novo ar à orientação cultural do governo. É pagar para ver

Marco Aurélio Nogueira

21 de janeiro de 2020 | 13h33

Inevitável e previsível o alvoroço causado pela eventual ida da atriz Regina Duarte para o governo Bolsonaro.

Em situações normais, só de se ter uma substituta para o sinistro Roberto Alvim já seria motivo de comemoração.

Porém, não estamos em uma situação normal. Seja porque o governo atual é o que é, seja porque em tempos de redes e desejo de ter voz nada passa sem uma boa polêmica.

Regina Duarte é conservadora, mulher católica, antipetista militantes. Nunca escondeu isso, nem quando protagonizou a batalhadora Malu Mulher, no final dos anos 1970. Suas características ideológicas podem desagradar, mas não deveriam servir para que se a avaliasse e a desqualificasse in limine.

A carga contra ela será pesada, em nome da suspeita de que seguirá a trilha do reacionarismo propagandeado por Alvim.

Regina Duarte é antes de tudo uma artista, atriz e produtora teatral, que já contribuiu bastante para a cultura brasileira, graças sobretudo à longa carreira e aos personagens marcantes que personificou na TV. É uma figura marcante na área. Deveria ser analisada a partir disso, não dos posicionamentos políticos complicados que adotou ao longo dos anos. Não é por acaso, como informa a revista Época, que a ala mais sectária do governo vê nela uma moderação que considera prejudicial a seus interesses e à “guerra cultural” que deseja travar.

De certo modo, Regina é um subproduto da polarização fratricida que engolfou o País nas últimas décadas e ganhou particular efervescência no mundo artístico, ora como oposição ao PSDB, ora como expressão da defesa de Lula, ora como contestação a Bolsonaro. Não houve momento, a partir do final do século passado, em que artistas, cineastas e produtores culturais tenham convivido em paz, sem brigas e celeumas. A tensão virou parte do jogo, como aliás nunca deixou propriamente de ser. A diferença é que, lá atrás, havia mais determinação unitária e mais projeto nacional. Com o naufrágio disso, o circo pegou fogo.

A indicação de Regina Duarte pode dar novo oxigênio à orientação cultural do governo. Será preciso pagar para ver, pois não há nenhuma garantia de que ela conseguirá conter os apetites autoritários do bolsonarismo e conquistar a indispensável autonomia, sem o que nada poderá fazer de proveitoso. Depende dela, mas depende mais ainda do governo e dos apoios que vier a obter entre o pessoal da cultura.

Esperança e torcida estão postos na mesa. Como disse Gilberto Gil: “que Regina veja a cultura do Brasil com os mesmos olhos que eu e tantos outros vemos a bela figura dela”.

A emenda de Maitê Proença completou o quadro: “Regina Duarte não é perversa, nem cínica, nem nazista. Tem admiradores de todas as ideologias. É a melhor opção dentro do cenário em que vivemos”.

Tudo o que sabemos sobre:

Regina Duarteculturagoverno Bolsonaro