Quando a política perde a cultura, todos perdem e a democracia sofre

Marco Aurélio Nogueira

25 Abril 2015 | 19h00

Há uma verdade e um dilema no centro da vida nacional.

A verdade pode ser apresentada assim. Na sociedade em que vivemos, não há lugar para ignorância e amadorismo: o modo de vida requer qualificação, boa formação e capacidade de manejar os múltiplos recursos que se tem à disposição, ou que se pode acessar. Pede que atuemos em rede, organizando informações e buscando convertê-las em conhecimento. Exige, em suma, educação contínua.

Podemos acrescentar: a vida também espera que recusemos a especialização estreita, que abracemos o pensamento complexo e articulemos as atividades práticas com cultura, arte, literatura, música, cinema.

Se é assim nos mais variados setores, não poderia ser diferente na política. Seus protagonistas dedicados – os políticos profissionais, os governantes, os gestores – estão obrigados a fazer o mesmo que as demais pessoas: encharcar-se de informação, cultura e conhecimento, pôr-se de modo ativo diante do mundo real para interrogá-lo e compreendê-lo. Especialmente se desejarem protagonizar a grande política, com os olhos no bem comum, na reforma democrática progressiva e na melhoria das condições de vida de todos, e sobretudo dos mais necessitados.

Políticos refratários à formação permanente continuarão a existir, assim como muitas pessoas seguirão alheias às exigências da época ou impossibilitadas de atendê-las.

É que a vida, ao mesmo tempo em que pede cultura e conhecimento, cria incentivos para uma adaptação passiva. Abre espaços para a racionalidade crítica e a sensibilidade cultural mas também pressiona em favor de uma racionalidade burocrática, operacional. Divididas entre o atendimento a estes sinais contraditórios, inúmeras pessoas acabam tendo de optar por aquele que rende mais frutos no curto prazo.

Acontece o mesmo com os políticos, que talvez estejam ainda mais expostos à racionalidade instrumental: afinal, eles estão em contato direto com o poder e a gestão, setores que são cortados por influxos pragmáticos recorrentes, pela necessidade de apresentar resultados e por uma “urgência” que não concede tempo para reflexões sofisticadas. Além disso, são propensos a uma espécie de arrogância autossuficiente, comportando-se como se não mais necessitassem de esforços educacionais.

Chegamos assim a um dilema, que lateja sem cessar no Brasil. É que estamos assistindo ao empobrecimento acelerado da política, que se divorcia sempre mais da cultura e da intelectualidade. Assim “racionalizada”, a política não consegue cumprir o que promete, qual seja, civilizar os conflitos sociais, processar demandas, contribuir para o governo democrático da sociedade e o fortalecimento da cidadania.

Não estou evidentemente me referindo à intelectualidade como professores ou acadêmicos, mas como conjunto de pessoas dotadas de sensibilidade, conhecimentos e habilidades para falar, escrever, argumentar e persuadir. Falo de formuladores e organizadores, gente afinada com a construção de projetos substantivos, o questionamento e a elaboração de ideias, sonhos e utopias.
Hoje, no Brasil, os intelectuais se afastaram da vida política propriamente dita, aquela materializada em partidos, instituições, cargos e responsabilidades. Talvez não tenha sido muito diferente no passado. Mas antes não se vivia numa “sociedade do conhecimento” e a própria intelectualidade era reduzida. Mesmo assim, a presença dela na vida política se fazia sentir de modo efetivo.

Hoje, ao contrário, nesta época de ideias e conhecimentos, o rebaixamento cultural dos grupos dirigentes surge como um contrassenso.

Se olharmos de relance a história de nossos mais importantes partidos políticos – do PTB, da UDN e do PCB ao MDB, ao PT e ao PSDB –, podemos ver que conheceram seu auge quando foram influenciados por homens de cultura, que forjaram as ideias que impulsionaram a atuação e a identidade dos partidos. Por extensão, atraíram outros intelectuais e transferiram qualidade para o conjunto da vida política, produzindo uma cultura que desceu para a sociedade.

O que vemos hoje? Bons políticos existem, com certeza, e muitos deles têm formação intelectual. Mas não temos mais, na política, quadros da estatura intelectual de Júlio de Mesquita, Astrojildo Pereira, Alberto Pasqualini, Caio Prado Junior, Carlos Lacerda, Franco Montoro, Florestan Fernandes, Ulysses Guimarães, para citar alguns grandes, mais partidários ou menos. Dos que estão em ação, podemos citar Fernando Henrique Cardoso, mas não muito mais do que ele.

Os intelectuais que se aproximam da política corrente pesam pouco como intelectuais, não modulam sua atuação com uma “alma” cultural. Tornam-se “sistêmicos”: fazem com que as coisas funcionem.

O efeito é trágico. A linguagem política decaiu a níveis inimagináveis, o debate público é rústico, não há mais dirigentes que organizem bancadas e militantes, a indigência intelectual corrói os jovens líderes, as decisões governamentais têm embasamento técnico, mas tropeçam bisonhamente na comunicação social e não são acompanhadas por uma visão abrangente de País. Para piorar, o modo dominante de fazer política – que ficou imune a ideologias – abre sempre mais espaços para a demagogia, o populismo, o dinheiro, o faz-de-conta.

Como seriam um freio natural a estes processos, os intelectuais fazem muita falta.

É um sinal dos tempos, um efeito da modernização “líquida” impulsionada pelo capitalismo globalizado. A situação deveria estimular os intelectuais. Eles, porém, parecem bloqueados por suas agendas profissionais, sem força para agir sobre a vida e modificá-la.

O pior é que esta situação cria uma matriz que vai modelando a sociedade e fazendo com que os dirigentes (não só os políticos em sentido estrito) se tornem executores de rotinas ou servos da autoridade formal, deixando assim de liderar e organizar.

Quando a classe política perde a cultura, todos perdem. [Publicado em O Estado de S. Paulo, 25/04/2015, p. A2].