Protestos, violência policial, dissonância: vida que segue

Marco Aurélio Nogueira

13 de janeiro de 2016 | 14h38

“Não é possível que uma manifestação se transforme em anarquia”, disse o secretário de Segurança Pública de São Paulo, Alexandre de Moraes, ao tentar justificar a brutalidade policial contra os manifestantes que saíram às ruas da capital paulista nos últimos dias.

O secretário empregou a palavra “anarquia” em sentido ostensivamente negativo. Muitos dos que foram às ruas se consideram anarquistas, no sentido de serem contra a autoridade e a favor da autodeterminação sem mediações. Ao mesmo tempo, o MPL tenta organizar um protesto, e o verbo organizar é recusado pelo anarquismo, tanto pelo clássico quanto pelo interpretado pejorativamente.

Por sua vez, a tropa armada segue orientações díspares, ora falando com a suavidade do apelo à “via pacífica”, ora arreganhando os dentes e descendo o cassetete nos garotos. O prefeito e o governador trocam mensagens entre si, mas mais batem cabeça do que coordenam ações. Têm cálculos políticos e eleitorais distintos. O grosso dos manifestantes grita “sem violência”, mas não condena os atos violentos (de black-blocs?) cometidos pelos que estão do seu lado. As ruas se tornam praças de guerra, deslocamentos ficam impossibilitados, a população paga o preço maior, tem seu cotidiano revirado e o preço das passagens sobe assim mesmo.

O prefeito Fernando Haddad proclama sua preocupação e enfatiza que as cenas de confronto e violência “são incompatíveis com a cidade de São Paulo”, que deve ser um “palco de democracia onde as pessoas possam se manifestar livremente”. Mas não demonstra vontade de negociar o preço das passagens com os que protestam.

A Secretaria de Segurança Pública garantiu que continuará a repetir a operação feita durante os atos de terça-feira, impondo o trajeto todas as vezes que os manifestantes não quiserem cumprir o caminho informado. Acredita que os manifestantes devem negociar previamente a rota que pretendem seguir, para que seja possível organizar o trânsito, o transporte e a segurança. Mas o MPL não aceita, dizendo que define o trajeto “com quem está no ato, não com a polícia”.

Pode-se dizer que o atrito e a dissonância se converteram no fator central dos protestos de rua. De certo modo, sempre foi assim. Só que, antes, agir de forma organizada era um valor, algo que enchia de orgulho os manifestantes e grudava na vida prática: na organização que emanava das fábricas, dos locais de trabalho, dos partidos, das escolas e dos sindicatos, que serviam de referência e magnetizavam tudo. Hoje, ao contrário, a “desorganização” está imposta pela realidade: os empregos são temporários e escasseiam, o trabalho é voluntário e em tempo parcial, muitos ganham dinheiro sem sair de casa, não têm uma identidade profissional claramente definida, as escolas ou universidades não fornecem um vetor organizacional efetivo, inúmeros jovens nem sequer admitem trabalhar em organizações com horários predeterminados e comandos hierárquicos claros.

A dissonância estrutural se manifesta entre os próprios manifestantes, entre eles e a população, entre eles e a polícia, o Estado e o governo, entre os governos do estado e do município. Entre todos e a mídia, que reverbera múltiplas narrativas mas tem suas próprias pautas.

Fazer um protesto passou a incluir a ideia de atazanar a vida de todos: chamar atenção do maior número possível de pessoas para um fato que se considera contrário ao interesse público ou que prejudica a população inteira. A maioria, porém, não se engaja, continua a tocar sua vida em busca de salário, de alguma fonte de renda, de um emprego. Não é por acaso que se protesta nos horários do rush. São neles que os ânimos estão mais exaltados, o cansaço é mais evidente. Imagina-se que isso possa ajudar a que o protesto se massifique, agregue os recalcitrantes e amplie o alcance midiático. Manchetes na primeira página ficam mais garantidas quando o caos se instala.

É uma tática: disputar a narrativa, travar a batalha simbólica.

Tem alguma eficiência, mas é meio suicida, pois a irritação da população prejudicada não ajuda a que se responsabilize o poder público ou se denuncie a violência policial. A polícia bate, prende, coíbe, ameaça. Mas não dissuade, não persuade, não consegue convencer os manifestantes a fazer uma passeata “dentro da ordem”. No dia seguinte, tudo de novo. Não se avança. Na melhor das hipóteses, como ocorreu em 2013, a espiral da repressão violenta desencadeia uma reação de solidariedade, que leva mais gente às ruas mas não garante o sucesso do protesto. Mas a história não se repete, a não ser como farsa. O risco é que, ao final, tudo se resuma a um grande happening.

Bacana, mas pouco produtivo.

Com todos de volta para casa, a vida segue, nenhuma alternativa política aparece, a população continua distante do Estado ou entregue às seduções do que se promete com certas políticas públicas. A saúde, a educação, o transporte, a convivência cívica, política, permanecem iguais, a se arrastar.

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