Prisão de Vaccari indica que a crise também é do PT e não só de Dilma

Marco Aurélio Nogueira

16 Abril 2015 | 13h00

O que se pode esperar quando o líder do Partido dos Trabalhadores na Câmara, deputado Sibá Machado, afirma que “estamos extremamente desconfiados de que há uma orientação deliberada nas delações premiadas para prejudicar o PT”?

A declaração foi feita a propósito da prisão do tesoureiro do partido, João Vaccari Neto, mas parece endereçada para explicar toda a desgraça que se abateu sobre o PT nos últimos anos e especialmente nesses inacreditáveis primeiros meses do governo de Dilma Rousseff reeleito em 2014.

Parece endereçada, mas não explica.

A afirmação de Sibá Machado divide o PT. Está longe de ser, porém, um ato isolado. Integra a narrativa oficial e vem sendo corroborada pela cúpula partidária. O governador do Piauí, Wellington Dias, muito ligado a Lula, disse o mesmo: “Sempre achamos que o foco da Operação Lava-Jato era criminalizar o PT”.

Os dirigentes petistas oscilam entre o menosprezo pelos fatos – “que partido não foi financiado assim?” – e a autocomiseração, tipo “não gostam de mim porque eu sou bom, justo e superior”. Insistem que o PT é vítima preferencial das “elites golpistas” e não levam em conta sequer a força e o tamanho adquiridos pelo partido de 2002 para cá, o que fez com que ele passasse a ser temido e a incomodar os adversários.

Erros, carências e descuidos foram se acumulando. Ao passar da condição de armazém de esquina para a condição de rede de hipermercados, o partido descuidou da gestão e continuou vendendo sua mercadoria do mesmo jeito: arrumando grana com os amigos, tomando empréstimo a torto e a direito, fazendo pagamentos em cash e promoções com os produtos prestes a vencer. Não sofisticou suas finanças, nem se preocupou em encaixá-las numa lógica lícita radical. Meteu os pés pelas mãos. Foi cedendo, cedendo e terminou se enfiando por inteiro na esparrela da corrupção.

Vaccari é um operador. Não foi o formulador dos esquemas. Sua prisão, que tem forte impacto simbólico, antes de tudo, deixa desencapado o fio de um novelo que guarda uma bomba de vastas proporções.

Diante disso, o partido se arrasta, anestesiado. Balbucia frases protocolares e faz pose de inocente e coitadinho, quando o certo seria agir para cauterizar os ferimentos e assumir a devida responsabilidade, com a devida autocrítica.

Ao não fazer isso, cava a própria sepultura e emporcalha a história da esquerda no Brasil.

Os dirigentes petistas parecem mesmo acreditar que o desgaste do partido vem da campanha de “criminalização” e das acusações de corrupção. Não enxergam o mais óbvio: o PT resfólega e retrocede porque jogou fora as bandeiras que o identificaram como partido reformador, de esquerda. Não funciona mais, e não de hoje, como usina de ideias para melhorar a vida dos brasileiros e construir uma sociedade democrática. Converteu-se em gestor dos mecanismos do poder e dos sistemas, cortando os laços com a sociedade viva. Segura-se desesperadamente no fato (importante, mas que não salva nenhuma lavoura) de ter distribuído renda e criado uma “nova classe média” para o mercado. Diz que isso é emancipação. Parece acreditar. E, nessa crença, fecha os olhos para o que deixou de lado, para o que não fez, para as opções equivocadas que seguiu, como a de fortalecer o capitalismo pondo em curso um desenvolvimentismo predatório, assentado em grandes obras e no consumo de massas, hostil ao ambientalismo, que violentou a Amazônia, com suas populações e seus povos.

Tornou-se igual a todos os partidos “burgueses”, senão pior do que eles. Seguiu em frente às cegas, sem uma boa teoria da sociedade, do capitalismo contemporâneo e da correlação de forças dentro e fora do País. Enfraqueceu a democracia ao incrementar o pragmatismo, ao abandonar a ligação entre cultura e política, ao fazer campanhas apoiado em ataques vis, mentiras e inverdades, como foi a de Dilma em 2014. E vai morrendo pela boca, ao governar sem comunicação social competente, sem projeto, sem política, e com a mesma arrogância pragmática de antes.

Seria possível fazer um elenco longo de “traições” e abandonos.

É por coisas assim que o PT está perdendo as ruas, constatação que tira o sono de um atônito Lula.

O partido, na verdade, chegou àquela encruzilhada histórica em que precisa decidir o que pretende ser amanhã. O PT é hoje um partido desconectado: separou-se de sua história (e de suas bases) e separou-se da sociedade real que está aí, nas ruas. Envelheceu sem sabedoria. Não sabe o que fazer, especialmente num momento em que a economia — que ele elegeu como sua principal fonte de legitimação — não vai bem. E envelheceu com arrogância, convencido de que, depois de 12 anos seguidos de poder, a população toda seria só agradecimento e fidelidade. Tem buscado driblar o absurdo desta imagem com a ideia de que seus adversários integram a elite branca e rica, que o povo lhe continua tão leal quanto sempre. Engrossa a voz para se defender e acusar, mas as palavras que lhe saem da boca estão surradas, não funcionam, ficam soltas no ar, escravizadas pelo maniqueísmo e por uma visão torta do conflito social e da luta de classes.

A resposta para seu maior dilema é simples: o PT perdeu as ruas porque se separou delas e não entendeu nada do que se passa nelas.

Para um partido que sempre quis se apresentar como de esquerda, não pode existir tragédia maior.

A sorte é que o PT não é, não será e nunca foi, toda a esquerda. Sua decadência trava momentaneamente o reformismo, mas ao mesmo tempo abre as portas para um esforço amplo de renovação da política e das ideias mesmas de esquerda e partido. Que passará pelo que está fora e também pelo que há de vida ativa dentro do próprio PT.