Possibilidades realistas para 2021

Possibilidades realistas para 2021

Entre temores e esperanças, 2021 será um teste para o realinhamento político dos democratas e o reposicionamento das esquerdas

Marco Aurélio Nogueira

04 de janeiro de 2021 | 15h50

Foto Peia S. Dias

Todo início de ano é a mesma tentação. Desejamos decifrar o futuro, projetar nos próximos 360 dias nossas expectativas e torcidas, nossos temores e preocupações. Não há como evitar, por mais realistas que sejamos.

Olhamos para frente e divisamos mais sombras do que luzes, porque, afinal, trata-se de história, processo que não se submete a controles finos e não pode ser programado. São homens e mulheres em movimento, fluxos incessantes, antagonismos e contradições que se chocam.

Falamos, quando muito, em possibilidades e probabilidades.

Vacinas e vacinação

Essa é uma área em que se misturam medos e esperanças. Mesmo quando não vemos os imunizantes como a eliminação cabal e definitiva do vírus, estamos convencidos de que eles são um passo gigantesco nessa direção. Milhões de vidas poderão ser poupadas, ainda que as precauções tenham de continuar.

Duas constatações. O governo não agiu até agora para viabilizar a vacinação. Não há calendário e não se sabe de que vacinas o País irá dispor. A incerteza é enorme e a sensação é de que estamos no vácuo, numa zona de penumbra. O negacionismo duro do bolsonarismo é agravado pelo negacionismo light, dissimulado, seguido por aqueles que lotaram praias e praças na comemoração do réveillon e por aqueles que relativizam essa conduta, alegando ser ela um momento de “desafogo” de gente que ralou o ano inteiro na quarentena e merece ter alguns momentos de diversão.  É uma espécie de manicômio a céu aberto, com “narrativas” e tudo. Seu emblema foram as férias do presidente no Guarujá, marcadas por atos grotescos daquele que deveria zelar pelo bom exemplo em um momento em que o vírus expande seu poder de contaminação no País. Ele acredita que está a combater o “sistema”, quando na verdade faz um ataque à vida. De quebra, insufla sua galera de fanáticos, com uma fileira de conflitos artificiais.

Duas possibilidades. O governo federal desperta para o problema e permite que o ministério da Saúde coordene a vacinação, agilizando-a ao máximo. É uma possibilidade que colide que os serviços prestados pelo governo até aqui, que foram, na verdade, um enorme desserviço. Parece ser da natureza do governo atual flertar com a desgraça. A equipe ministerial é péssima, o presidente circula como barata tonta sem tomar qualquer atitude a não ser proteger a família, promover aglomerações macabras e espalhar o vírus. Não temos governo, a rigor.

A segunda possibilidade, que antagoniza com a primeira, é a vacinação ser empreendida a ferro e fogo pelos entes federativos subnacionais, secundados por clínicas particulares, que já começaram a falar em comprar lotes de vacinas para vender aos que puderem por elas pagar. É uma possibilidades que aprofundará a desigualdade social e que terá baixo impacto epidemiológico, além de sacramentar a injustiça em que vivemos. Dada a inação governamental, porém, ela não pode ser descartada.

Talvez fiquemos entre uma e outra em termos de probabilidade. A pressão social pela vacinação será a cada dia maior, mesmo que o governo siga negando o problema. Tenderá a reduzir os apoios ao presidente e, com isso, a tornar mais difícil a continuidade do governo no padrão em que se encontra. Como ele passou a depender dramaticamente do “centrão”, já se fala em reforma ministerial, que poderá trazer alguma melhoria pontual sem, no entanto, mudar o modo de ser do governo, que a essa altura parece cristalizado.

Não podemos, pois, jogar todas as fichas numa única casa.

A oposição democrática

Poderá ter papel decisivo, seja no processamento da vacinação, seja na contenção dos apetites autoritários e grosseiros do governo. Papel extremamente importante será a eleição para a presidência das duas casas legislativas, em especial a da Câmara. Antes de tudo, porque se o governo conseguir controlá-las, o caos atual tenderá a se prolongar e a sociedade civil perderá um aliado fundamental. Depois, porque os arranjos que se fazem em torno da candidatura de Baleia Rossi antecipam em boa medida o que poderá ser feito em 2022: uma articulação centrista aberta para a esquerda, voltada tanto para a independência da Câmara quanto para a sedimentação de alianças de tipo programático, com as quais o campo democrático se colocará como o grande ator de 2022, com uma inflexão progressista.

Outra possibilidade passa pelo fracasso dessa articulação, seja pelo motivo que for. Nesse caso, com o governo mandando na Câmara, aos democratas só restará temer o pior. Culpas serão distribuídas, acusações de traição se acumularão e o clima ficará mais pesado, tóxico mesmo. Ficará mais evidente a probabilidade de que a oposição democrática não disponha de fôlego para virar a mesa em 2022.

A esquerda

Ainda que não esteja no melhor de suas forças e viva mergulhada em dúvidas existenciais e limitações, a esquerda precisa ser analisada com atenção no ano político que se abre. Realismo máximo: ela tem peso e agrega pessoas, desconsiderá-la é olhar o mundo de maneira torta. Mas a ótica realista também precisa ser praticada pela própria esquerda: ela precisa reconhecer que ainda lambe suas feridas, está se recompondo e disputando território. Não pode mais confiar em um Lula imbatível, pois as circunstâncias mudaram drasticamente. Sendo um político bastante pragmático, Lula deve saber disso e não parece razoável apostar que ele saia candidato em 2022, mesmo que seja inocentado na Justiça. Seu apoio a um nome petista puro-sangue também não garante bônus, pode mesmo ser um fator de ônus. Muitos atritos podem ser antevistos aqui.

Caso a vontade de autonomia da esquerda prepondere e ela navegue em 2021 colidindo com a formação de um centro democrático progressista, teremos em 2022 duas possibilidades: ou a esquerda modera seu antagonismo, afirma-se no primeiro turno e converge no segundo para uma candidatura centrista, ou se radicaliza e passa para o segundo turno sem conseguir o apoio ativo do centrismo, sendo então derrotada pelo bolsonarismo.

2021 será, pois, um teste para o realinhamento político dos democratas e o reposicionamento das esquerdas. Será um ano para que uns e outras esclareçam suas pretensões e mostrem, aos brasileiros, como estão a pensar a vida, o que pretendem e o que propõem. Já passou a hora de uma política com “P” maiúscula ser mais forte do que os cálculos rasteiros, o oposicionismo retórico e os protagonismos autorreferidos.

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