Por que a esquerda não consegue avançar?

Marco Aurélio Nogueira

22 de julho de 2015 | 10h37

Se a situação é de crise e aguçamento de contradições e conflitos sociais, se há conservadores, neoliberais e “direitistas” em todos os cantos, seria de esperar que as forças de esquerda crescessem e passassem a ter voz mais ativa. Não é o que acontece. Ao contrário, elas regridem para posições defensivas, aceitando que o quadro não lhes é favorável. Parte delas, por exemplo, em vez de buscarem disputar a direção do processo político, voltam a falar em “frentes de esquerda” para atacar o sistema. Outras nem sequer se preocupam com a própria identidade.

O que acontece?

Há, por certo, um problema de correlação de forças e de hegemonia. Um partido de esquerda pode chegar ao governo sem que tenha reais condições de governar. Pode precisar de aliados que cobram um preço alto e terminam por frear o programa esquerdista. Pode ter de lidar com uma realidade hostil e com determinações estruturais que não se deslocam por um ato de vontade. Pode, enfim, ter se preocupado mais com votos do que com ideias, trabalhado mais para chegar ao governo do que para produzir cultura e, com isso, alterar os alinhamentos éticos e culturais dos cidadãos. Neste último caso, o partido que tem alguma capacidade de coerção, mas não tem de hegemonia.

Esquerdas existem, evidentemente, para atacar os sistemas. O capitalismo, antes de tudo. Mas não podem viver somente disso: também precisam governar e mostrar serviço. Ao fazerem isso, acabam tendo de fazer os sistemas funcionarem. É um efeito não desejado, um dilema: a esquerda deve trabalhar para formular programas de governo ou para elaborar concepções do mundo? Deve agir para definir o melhor meio de chegar ao governo ou para construir uma “filosofia” para a sociedade, algo que vem antes e está acima da mera opinião com que se governa ou daquilo que se faz quando se governa?

A história é conhecida. Sempre que chegou ao poder, a esquerda teve de pagar um preço e de algum modo amarrou sua identidade à sua capacidade de governar. Não é diferente hoje: que preço é razoável pagar para que se arque com os desafios e os custos do governar numa época que parece produzir sempre mais obstáculos para a materialização de uma razão governativa superior, uma época que pressiona no sentido da homogeneização de todos os governantes?

Talvez se possa ver na reiteração sempre mais aguda desse dilema a razão maior para o encolhimento das esquerdas. Pelo menos no Brasil.

Por aqui, tem-se há décadas uma sequência de governos que de algum modo se abrem para a esquerda. Não é verdade que se possa narrar a recente história política brasileira como se ela tivesse tido um período neoliberal (os anos FHC) que teria sido negado e superado por um período “social-desenvolvimentista” (de Lula para frente). O que tem havido por aqui são duas formas de socialdemocracia, que, se quisermos, podemos classificar como mais “à direita” ou menos, mais vibrante ou menos. Nunca, como nesses anos todos, o capitalismo esteve mais forte e pujante e nunca, também, tivemos tanta democracia e tanta inclusão social. Não houve solução de continuidade: os governos Lula não negaram as realizações de FHC, ao contrário, apoiaram-se nelas para realizar seu programa.

Falar algo diferente disso é brigar com os fatos.

Acontece que este também foi o período em que a sociedade brasileira se modernizou de forma acelerada e conforme o padrão daquilo que tem sido chamado de “modernidade líquida”, turbinada por conectividade intensiva e tecnologia. A quebra de referências foi geral, a desedução política, brutal. Os partidos socialdemocratas – sim, o PSDB e o PT – deixaram de lado sua autoconstrução e se entregaram à gestão, ao poder e a seus recursos, à luta eleitoral sem freios. Tornaram-se inimigos, deixaram de dialogar e cooperar. Passaram a fazer tudo pelo poder. Encolheram como organizações de vontade e ação, como esquerda propositiva e educadora, impregnada de valores e ideias. Foram, além do mais, prejudicados pela fragmentação social e pelo individualismo que o modo de vida prevalecente impulsionou. A sociedade caminhou numa direção, a esquerda em outra. De dissonância em dissonância, perdeu o pé.

E houve, por fim, a avalanche da corrupção. Fato intrínseco ao Estado e à vida política brasileira, ela cresceu de modo assustador na última década e meia. Veio no embalo de algumas estratégias de conquista e gestão do governo, como um expediente para fazer com que posições de esquerda conseguissem não ser hostilizadas pelo “presidencialismo de coalizão” e pudessem se reproduzir. Serviu de cimento para colar as partes destas complexas estratégias, lubrifica-las e financiá-las. Ajudou sobremaneira fazer a jogo de cooptações com que se armaram as heterogêneas e venais “bases aliadas” com que se imaginava governar.

Não houve necessariamente dolo ou má-intenção. Tratou-se, creio, sobretudo de uma estratégia que fugiu do controle, um feitiço que virou contra o feiticeiro. É assim, e não em termos morais, que ela deve ser analisada. Reproduzida sem restrições e em escala sempre mais ampliada, a estratégia foi criando raízes, multiplicando beneficiários, criando luxo e facilidades, fazendo com que muitos caíssem em tentação. Viciou, digamos assim.

O estrago que os efeitos colaterais desta estratégia produziram na própria esquerda ainda terá de ser investigado. Penso que é um estrago enorme, assustador, que somente será remediado à custa de muito tempo, muito esforço e muito sacrifício. Parte importante do rico patrimônio da esquerda foi sumariamente atirado na lata de lixo da história. Um anel de encantamento e confiança se rompeu.

Mas a esquerda é como o sal da terra. Ressurge sempre porque, a rigor, nunca desaparece e não desaparece porque é indispensável. Pode, porém, permanecer viva e ficar à margem, respirando com dificuldade, sem fazer diferença.

Para voltar como força ativa ao palco político atual a esquerda terá de ser uma “esquerda de governo” sem deixar de ser uma “esquerda de valores” e uma “esquerda de luta”. Terá de ser democrática e dialogar com todos, não somente com os que pensam como ela. Seus partidos terão de ser reinventados, suas lideranças renovadas, sua linguagem precisará perder a cadência tradicional, a arrogância, os cacoetes e o doutrinarismo. É praticamente uma refundação.

A esquerda precisará definir com qual política pretende chegar ao governo, deixando claro se fará isso para gerir o sistema ou para fazer com que as coisas mudem de fato. Vencer a corrida e ao final se despojar dos valores, princípios e ideias com os quais se afirmava uma identidade é não só uma “traição” à própria história mas também um enorme equívoco ― o equívoco de achar que se pode avançar apenas porque se tem, no governo, uma nova e melhor classe política, que por ser nova e melhor pode se dispensar de manter vivas as referências sociais, a integridade moral, os compromissos, os vínculos.

Se conseguir unir a perspectiva do governo à perspectiva da sociedade — o Estado e a política ao social e aos cidadãos —, se conseguir encontrar um equilíbrio entre a necessidade de repor uma tradição e a necessidade de se manter em permanente renovação, a esquerda resolverá a equação que lhe atravessa a garganta. E poderá então mostrar que é competente não só para governar e agir politicamente, como também para se diferenciar e para transformar a política em algo colado à realidade viva das pessoas, às suas expectativas e aspirações, à sua disponibilidade para tentar, coletivamente, construir mundos sempre mais humanos e habitáveis, que se confundem, como projeção e possibilidade histórica, com a longa e rica tradição do socialismo.

O que diferencia a esquerda é sua disposição de funcionar como vetor de uma nova ética política. Se perder isso, cai no limbo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.