Pães, ruído e desrespeito

Pães, ruído e desrespeito

Ruído de uma padaria chique revolta moradores, que querem o sossego de volta.

Marco Aurélio Nogueira

19 de dezembro de 2019 | 14h19

O mercado a cada dia é mais onipresente na vida moderna. Não é diferente em São Paulo. Com sua grandeza e seu dinamismo, a cidade é um prato cheio.

Nos últimos tempos, espocaram por ela diversos cafés e padarias gourmet. Estão por toda parte, ajudando a redefinir a paisagem urbana e os hábitos gastronômicos. São símbolos de modernidade, que ganham novos significados e funções.

Um desses templos da panificação abriu as portas recentemente em Higienópolis, bairro chique, de alto poder aquisitivo e bastante adensado. Fincou-se ali, espremido entre edifícios residenciais.

O empreendimento atende pelo nome de “Le Blé – Casa de Pães” e consta que integra uma rede espalhada pela cidade. Apresenta-se como “restaurante francês moderno”. Parece coisa fina.

Por falha de planejamento, incúria ou desleixo, não prestaram a devida atenção ao entorno. Ocuparam um prédio de quatro andares e instalaram os exaustores no teto, a céu aberto.

Não são exaustores comuns, mas duas torres gigantes, duas bocarras vorazes a 5 metros das janelas dos apartamentos vizinhos. Delas sai uma toxina bem conhecida dos paulistanos: um ronco ensurdecedor, que martela o sossego e a paciência dos moradores das redondezas. Quando são ligados, é como se um avião decolasse. Um verdadeiro horror para quem mora por perto.

Nem é preciso dizer que a vizinhança se indignou. O assunto passou a frequentar as reuniões de condomínio e as calçadas. Choveram telefonemas ao Programa Silêncio Urbano (PSIU), da Prefeitura, consultas a arquitetos, a advogados e ao Ministério Público e, evidentemente, muitas tentativas de negociação com os responsáveis.

Passaram-se os dias e nada aconteceu. A revolta começou a gerar ações de boicote ao empreendimento. A indignação cresceu, pessoas passaram a falar em mudar de casa, outras ameaçam chamar a polícia.

O caso, que é corriqueiro em São Paulo, mostra duas coisas importantes.

A primeira é a irresponsabilidade de uma empresa que tem tudo para ser um sucesso mas que não tem ouvidos  para a poluição sonora, nem olhos para o meio ambiente. Não demonstra estar interessada em criar uma relação amigável e produtiva com os vizinhos.

A segunda coisa tem a ver com os efeitos potenciais da mobilização dos cidadãos, caso ela se mostre efetiva e resiliente. A faísca que move os moradores é a busca de sossego pessoal e familiar. Mas essa razão aparentemente “egoísta” traz consigo o embrião de uma postura cívica mais ampla: a da conquista da cidade, da valorização da convivência e da urbanidade.

São coisas que os negócios deveriam considerar sempre. Até porque podem perder dinheiro e prestígio.

Enquanto isso, cresce a expectativa de que os órgãos fiscalizadores entrem em ação e os proprietários ajam para resolver o problema. É muita agressão e muito desrespeito para que tudo termine em pizza. Ou em pão francês.

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