Opacidade fulgurante

Opacidade fulgurante

Reforma ministerial não modifica o perfil do governo, que permanece o mesmo, com raiva do mundo, da vida, da democracia.

Marco Aurélio Nogueira

30 de março de 2021 | 11h38

Foto Peia S. Dias

Se algo há para se destacar na reforma ministerial promovida pelo Presidente da República é a falta de brilho, sua opacidade fulgurante, que chega a cegar de tão deslumbrante. O bolsonarismo deixou patente que não é um celeiro de quadros: sua tropa está composta por figuras de segunda linha, bisonhas na maioria. São convocadas para que rezem pela cartilha presidencial, sem vacilações.

O bolsonarismo teme buscar assessores fora de seu cercadinho. Não tem muito para onde correr, isolado que está por muitos campos minados. Desconfia de qualquer um que mostre autonomia, exiba coerência ou preste lealdade a outros credos e núcleos. Foi assim com a defenestração do general Fernando Azevedo do Ministério da Defesa, que preferiu ficar com as Forças Armadas em vez de embarcar na nau dos insensatos que singra os mares de Brasília.

Perdeu-se mais uma oportunidade para corrigir o rumo e a postura do governo. Não se terá mais do mesmo, porque ao se mudarem pessoas sempre há alguma troca de ar. Mas o perfil permanecerá o mesmo, com raiva do mundo, da vida, do povo, da democracia.

O presidente radicalizou um pouco mais, quebrando as expectativas de que faria uma manobra moderadora. Trocou seis por meia dúzia, com uma inflexão adicional: fechou seu círculo mais próximo, abraçado aos filhos.

No lugar do inacreditável Ernesto Araújo, vai um diplomata júnior, com carreira concentrada no cerimonial, visto como discreto e conciliador, mas seguramente não um formulador de política externa. Estará a postos para obedecer, quiçá com uma ponta de jogo de cintura. A política externa continuará com sua agenda “antiglobalista” e desorientada, alheia às dinâmicas da política mundial e aos interesses brasileiros. O Senado aceitou, em nome da acomodação. O Centrão endossou, com um prêmio de consolação: a nomeação para a Secretaria de Governo da deputada federal Flávia Arruda (PL-DF), ela também jejuna de primeiro mandato.

Braga Netto na Defesa é um escudo para o presidente, secundado por Luiz Eduardo Ramos na Casa Civil. Com André Mendonça de volta à Advocacia Geral e com o delegado PF Anderson Torres no Ministério da Justiça, completa-se a blindagem, que protege toda a família.

Nos próximos dias, ou horas, ficarão mais claros os efeitos da mexida presidencial. Especula-se que os comandantes das Forças Armadas poderão colocar os cargos à disposição de Braga Netto, num desdobramento da demissão do general Fernando Azevedo. Será um termômetro das relações dos militares com o presidente, a maior ou menor disposição deles de frear o desgoverno, que avança célere, sem nada produzir de positivo.

Enquanto isso, muita agitação no Congresso, montes de perguntas não respondidas e um clima de que algo está para acontecer, mas pode ser procrastinado.

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