O tempo e a complexidade das frentes políticas

O tempo e a complexidade das frentes políticas

O trabalho de construção de frentes democráticas reúne o destemor do leão, o trabalho incansável da formiga e a malícia da raposa

Marco Aurélio Nogueira

16 de outubro de 2018 | 12h22

Frentes políticas não se formam de um dia para o outro. Requerem trabalho intenso de construção. Sobretudo quando pretendem ser plurais, como são as frentes democráticas ou progressistas, que precisam ir além de partidos e organizações para atingir a sociedade, os cidadãos.

Não avançam somente com manifestos e declarações de apoio. Precisam de programas, propostas claras, gestos eloquentes de sacrifício dos interesses particulares em nome de um interesse comum. Necessitam de paciência, serenidade e persistência para fixar um patamar com o qual estejam todos de acordo.

O trabalho de construção de frentes democráticas reúne o destemor do leão, o trabalho incansável da formiga e a malícia da raposa.

Frentes têm menos força quando pensadas exclusivamente para vencer uma batalha. Como construção complexa que são, ganham corpo quando se projetam no tempo. Uma frente eleitoral fica mais forte quando tira de si uma frente programática de governo, por exemplo. Perde força quando se concentra só em derrotar um adversário, quando é uma “frente negativa” sem qualquer dimensão substantiva de positividade. Poderá ter algum efeito no número de votos, mas pouco ajudará a que se pavimente uma estrada para o futuro.

Toda frente implica a formalização de um pacto, no mínimo um pacto de não-agressão, base para que o trabalho conjunto seja viável. Aos poucos, o pacto pode adquirir maior envergadura e se traduzir em consensos programáticos, linguagem comum e metas coletivas.

A frente que muitos estão propondo em torno da candidatura de Haddad é uma ideia nobre, mas não poderá contar com o devido fator de amadurecimento. O tempo é seu adversário.

O tempo é fator-chave tanto para a articulação dos apoios formais, de partidos, por exemplo, quanto sobretudo para que seja aceita pela população e a impulsione. Sem contagiar os cidadãos, será uma ação de cúpulas que poucos efeitos práticos produzirá.

No caso das correntes eleições, uma frente democrática e progressista precisa olhar para dois lados: tem de atrair parte do eleitorado de Bolsonaro e conquistar votos dos democratas antipetistas. A batalha do convencimento não avançará por solavancos, espasmos e palavras de ordem: sua melhor chance repousa no adensamento progressivo e na manifestação clara, por parte de seu candidato, de um compromisso político que vá além de seu partido, que o ultrapasse e o ponha numa posição relativamente subordinada.

Frentes necessitam de ideias, intenções e compromissos, mas também de turbinas organizacionais que as dinamizem e coordenem. Uma análise realista dos fatos indica que pouco disso existe hoje.

A própria campanha de Haddad não parece mais trabalhar com a ideia. O senador baiano recém-eleito Jaques Wagner deixou claro que a aposta é em um apoio da sociedade, não na ampliação de acordos com outros partidos. “A gente conversa com todo mundo, mas não tem ideia de frente. Quem tá querendo formar frente? Eu desconheço isso”, disse Wagner, após uma reunião com Haddad na capital paulista.

Isso não significa que não se possa ver virtude na iniciativa.

Se for bem articulada e se se puser claramente num território suprapartidário e chegar à população, a frente pretendida  poderá ser a plataforma para uma ação democrática futura, que sustente o próximo governo ou a ele faça oposição. Caso chegue a se consubstanciar desse modo, será um importante recurso para a organização de espaços de reconciliação: de produção de empatia e esforços de cooperação.

 

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