O que move os partidos na busca por federações?

Para se viabilizarem, pequenos partidos buscam abrigo sob as asas de partidos maiores, mas com isso podem ficar engessados e sem fôlego eleitoral

Marco Aurélio Nogueira

22 de fevereiro de 2022 | 11h30

Causou espanto a aprovação pelo Cidadania de uma federação com o PSDB.

Não se sabe bem o que justificou a decisão, tomada por apertada maioria. Afinal, não se conhece em detalhes quais são os elementos de afinidade entre os dois partidos. O Cidadania é um partido de origem comunista, que se reformulou com bastante radicalidade ao longo das últimas décadas e hoje milita em uma área que se poderia aproximar da centro-esquerda, com ingredientes de socialismo democrático.

O PSDB, por sua vez, é hoje um partido sem identidade, uma espécie de zumbi que percorre o Brasil. Tem um candidato presidencial questionado internamente e que não alça voo nas pesquisas. João Dória não é propriamente um político programático e sua densidade tem sido sistematicamente posta à prova. Uma federação com o PSDB é uma operação de alto risco.

A aproximação entre o Cidadania e um PSDB assim configurado tem um resultado imediato: sopra os ventos em direção a Dória. Coisa que engessa o Cidadania, travando seu próprio candidato (Alessandro Vieira) e ficando amarrado a uma candidatura que até o momento não se mostra viável.

Mas os pequenos partidos, como o Cidadania, tem outros motivos para se interessarem tanto pela formação de federações. Eles precisam de votos, no mínimo para eleger bancadas parlamentares que os mantenham vivos e operantes. Não é uma má ideia, dada a fragmentação partidária vigente e as regras eleitorais, que preveem cláusulas de barreira complicadas.

As federações poderiam ser uma oportunidade para que se obtivesse maior coesão no sistema partidário e se aperfeiçoassem as coalizões políticas, dando a elas maior envergadura programática, com o efeito colateral de contribuir para a melhoria da governança e da governabilidade.

Em vez disso, o que se vê são pequenos partidos buscando abrigo sob as asas de partidos maiores, que, em tese, poderiam lhes fornecer maior visibilidade eleitoral, mais recursos de campanha e, quem sabe, candidatos majoritários com real poder de fogo. Tudo isso, também em tese, aumentaria a viabilidade eleitoral das pequenas legendas.

Não há nada líquido e certo a esse respeito. Tiros podem sair pela culatra com muita facilidade e aquilo que se imaginava obter resultar em perdas e prejuízo. As alianças obrigam os partidos a atuar juntos, como se fossem uma só sigla, por pelo menos quatro anos. É um tempo longo, aberto para tensões e desentendimentos.

Há uma série de questões ainda não esclarecidas no esquema das federações, a começar das exigências programáticas, da afinidade substantiva entre os pares e, sobretudo, do controle político dos arranjos alcançados, em nível federal, estadual e municipal.

O que dá para vislumbrar é o risco de que os peixes grandes engulam os peixes pequenos, contribuindo assim para apagar a contribuição que as pequenas legendas de maior coerência poderiam dar para a democracia brasileira.

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