O que faz com que um partido político se mantenha unido?

Marco Aurélio Nogueira

24 de agosto de 2016 | 11h47

Rui Falcão e a Executiva Nacional não concordam com Dilma Rousseff que, por sua vez, acha que a culpa pelos erros cometidos em seu governo cabe ao PT. O partido vê crescer o choque entre suas correntes e teme que a ala mais à esquerda esteja preparando o desembarque.  O movimento “Muda PT” encorpa, ao passo que a corrente majoritária – Construindo em Novo Brasil (CNB) – articula para Lula se tornar presidente do partido em março do próximo ano.

O cenário é de “guerra civil”, algo constante no universo partidário das esquerdas. No Brasil, rachas, rupturas e diásporas foram tão numerosos que seria enfadonho rememorá-los.

A questão interessante, aqui, é dupla: (1) o que faz com que um partido se mantenha unido? e (2) pode uma força cortada pelo fracionamento ambicionar a unificação da sociedade ou mesmo a unidade de ação entre partidos, grupos e pessoas que pensam de modo convergente? Pode ela almejar ser o polo unificador e coordenador de uma diversidade, um ator com vocação hegemônica?

Um partido se une quando tem uma cultura comum (uma ideia-força) e uma direção com capacidade de fazer política e organizar. Fazer política significa dialogar com militantes, simpatizantes, eleitores e cidadãos: falar com a “sociedade civil” que gira em torno do “Estado” partidário, ampliando e consolidando essa “sociedade civil”. Organizar, por sua vez, significa atuar para dar coerência, vertebração e musculatura ao conjunto, cuidando da reprodução e do fortalecimento de uma “máquina” operacional.

Nada disso frutifica se não houver uma cultura comum: um conjunto de ideias e valores que não somente embasam uma teoria política e uma “leitura” da realidade como também educam e magnetizam os seguidores.

A combinação desses três fatores vale seja qual for a “forma-partido” que se tenha em mente: o “partido personalista”, o “partido-empresa”, o “partido eleitoral”, o “partido de notáveis”, o “partido de massas”, o “partido-rede” ou o “partido movimentista”, uma organização mais pesada e burocrática ou uma organização mais leve e democrática.

O PT nunca foi um partido que tenha apresentado uma adequada combinação desses três fatores.  Apesar disso, cresceu muito, a ponto de se tornar a mais importante agremiação partidária do país no que diz respeito a votos, militantes e capilaridade. Mas sempre se ressentiu da falta dos componentes geradores de unidade interna. Sempre foi mais um partido de correntes, alas e facções: uma federação. Cresceu porque soube usar e distribuir os recursos de poder que foi acumulando ao longo do caminho.

Viveu e cresceu assim, mas está pagando um preço por isso. Essa sua conformação o perturbou tanto para adquirir uma estabilidade interna mais confiável quanto, sobretudo, para unificar a sociedade e projetar alianças. Fez com que o partido atuasse mais para juntar aliados circunstanciais do que para cimentar um bloco orgânico de forças.

O PT perdeu a batalha do impeachment por causa disso: por não ter conseguido controlar Dilma, por não ter dado a ela uma teoria com que governar e por não ter conseguido formar um bloco orgânico de forças políticas e sociais que o sustentasse, ficando na dependência de uma “base aliada” de qualidade discutível.

O que virá a partir de agora é um livro aberto e com poucas páginas escritas.

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