O ‘Parasita’ de Bong Joon-Ho e o de Paulo Guedes

O filme sul-coreano tem poesia, generosidade e imaginação. Já a ofensa do ministro é provocação barata

Marco Aurélio Nogueira

10 de fevereiro de 2020 | 12h56

Quiseram os deuses e os demônios que o Oscar de melhor filme fosse para “Parasita”, de Bong Joon-Ho, na mesma semana em que o ministro Paulo Guedes chamou os servidores públicos brasileiros de “parasitas”.

A beleza do filme sul-coreano – uma brilhante, corrosiva e inusitada denúncia da desigualdade social – contrasta fortemente com a grosseria do ministro da Economia.

Bong sabe do que fala, é seguro e generoso. Sua ficção é realista, tem poesia e oferece uma leitura contundente das sociedades atuais, com suas misérias escondidas em porões ou varridas para baixo dos tapetes, nas quais os expedientes pós-modernos são turbinados o tempo todo pela contestação e pela busca de igualdade.

Paulo Guedes, por sua vez, não tem poesia ou imaginação. É seco, brutal, ofensivo, previsível. Não tem um pingo da empatia exibida pelo diretor sul-coreano. Não demonstra ter noção do que fala, justo ele, que se pretende o novo czar da economia. Sobrevoa às cegas o mundo real, guiado por uma cartilha fiscalista e ultraneoliberal, que se apoia em um programa de crescimento que não sai do papel. Carrega uma única obsessão, que o possui e o aliena, em nome da qual se dá o direito de abusar de disparates o tempo todo.

Como assim chamar os servidores públicos brasileiros, em bloco, de “parasitas”, corpos que vivem à custa de organismos que os hospedam, minando-os e levando-os ao enfraquecimento? Seriam por acaso como as tênias, as lombrigas, os carrapatos?

Referir-se desse modo aos milhares de trabalhadores que mantêm em funcionamento sistemas vitais complexos como o da Saúde e da Educação, aos agentes que atendem à população Brasil afora, não é só grosseria, mas uma prova de ignorância e de falta de tato. Uma provocação no melhor estilo bolsonariano. Desvalorizar pessoas é o pior caminho a ser seguido por um gestor público.

E todo esse show para esgrimir uma caricatura de liberalismo que anda fazendo a fama de Guedes. Ele precisa difamar e ofender para dramatizar seu mais recente achado, a reforma administrativa. Monta o circo para depois sair dizendo que tiraram suas frases do contexto. Feio.

No dia 10/02, em mensagem enviada por Whatsapp, escreveu:”Eu me expressei muito mal, e peço desculpas não só a meus queridos familiares e amigos, mas a todos os exemplares funcionários públicos a quem descuidadamente eu possa ter ofendido”. Acrescentou que “não queria jamais ofender pessoas simples que cumprem seus deveres”.

Para denunciar que muitos funcionários gozam de privilégios negados à maioria da população, Paulo Guedes cometeu o pecado da generalização. Esqueceu-se, simplesmente, de apontar aqueles que estão a matar o “hospedeiro” e a impedir que o dinheiro chegue ao povo. Mostrou que não conhece a administração pública e não respeita seus servidores. Para repetir o que todos sabem – que há privilégios injustificáveis – optou por bater no elo mais fraco.

Jamais ganharia um Oscar.

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